Passou já o tempo de ir

Chegou a hora
Eu tenho de deixar de lado
Aquilo que me serviu,
Mas me limita.
Então agora,
Jogo pro passado
Isto que curou,
Mas irrita;
Que inovou,
Mas imita;
Me serviu
Não mais.
Sem mais restrições,
Sem mais precauções
Que seja o que for.

O problema com os velhos

Não culpe os velhos
Eles só esqueceram
Que o mundo vai além
Desse utilitarismo proposital
De ordem e progresso
O positivo é letal
Pros que podem, avanço
Pros que morrem, regresso
Os velhos se esqueceram
Que o mundo se sente,
Antes de se ter.

Nós perdemos

Nós perdemos.

Não falo simplesmente da esquerda partidária, que sucessivamente tem sido “surpreendida” nas urnas, mas sim de nós, humanistas. Não deveria ser considerado ‘de esquerda’ apoiar direitos humanos, mas, neste momento, é. O feminismo não deveria ser ‘de esquerda’; mas é. Lutas raciais, antifascismo e muitos outros movimentos deveriam ser mais sobre igualdade, mas não. E por isso que perdemos.

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A volta do trabalho

Os homens se espalham
As mulheres ficam juntas
O celular como palha
A cada parada se desmonta

Cena pronta,
Vida falha.

-R.C.

Uma pena

Se não bater as asas, o pássaro cai.

Se bater fraco, ele se mantém.

Se bater forte, ele vai subir.

O pássaro, em momento nenhum, sai do nível que quer. Isso faz parte da liberdade do pássaro; ele sempre sabe quão alto ele quer estar, qual caminho ele deve seguir. Quase nunca você vai ver pássaros se batendo no céu, afinal, as nuvens não ocupam espaço, logo, não há porque brigar por este.

Mesmo assim, pássaros não voam todos no mesmo nível. Uns voam mais baixo, uns mais alto- outros, nem voam- e são felizes assim.

Eu queria a liberdade dos pássaros.

Exigências

Amor pagão
Na fogueira arde
Fui contra o cristão
E deixei de ser covarde
Fogo forte, dor eminente
Logo a sorte foi, de repente
Luto pra poder,
Meu último artifício
Pr’um dia te ver
Farei sacrifício.

Caixas e caixas…

Nesta caixa de cimento
Onde guardamos nossa rotina
E sacramos nossa retina
Vejo caixas e lamento

Sem caixas,
Aos poucos o que se encaixava
Vai embora o que durava
E encaixado coisas menos baixas.

É um quebra-cabeça
De vida toda
Desmontado em remessa
Todavia.

Protesto é inútil
Detesto ser fútil
O material apodrece
Mental só enriquece

Aos poucos encaixo minha vida
Como fosse material
Como fosse normal
Se desfazer da tida.

Dar adeus ou até logo
Pros meus, não me empolgo
Só Deus vai saber
Quanta falta vão fazer.

Mais do que da Sicília
Aquelas unidas famílias
A minha se mantém junto
Encaixando-se pr’outro mundo.