Genuíno

O amor de verdade pode ser bonito
E não temer perda
Querer felicidade
Mas quer dizer que meu amor,
O da realidade,
O que eu sinto
É falso?
Eu não preciso de amor budista
Só quero alguém que fique e insista.

Provérbio antigo

Conhecer a si.
Poderia ter sido
Criado em si só
Uma omissão no ditado?

Zeugma, elipse
Talvez eclipse
De sintagmas complexos.

Conheça (o mundo)
A (partir de) si
Não seria absurdo.

Se temos poeira de estrela
Na formação química
Esta é a maneira cínica
De honrar aquelas

Dentro de mim,
Conheço todo um real
E me parece normal

As contradições
Acalmam-se
As direções
Apontam a si.

A dentro, claro
O palácio da mente
Sem insulto ou escarro
Só o doutor em paciente.

Então fiz assim:
Dentro de mim
Eu o conheci.

Pressentimento – prosaico de Fernando Pessoa

Há muito já te quero mas não via um momento de dizer. As tentativas foram infinitas, mas o momento nunca parece certo; o sol se esconde, ou minha coragem desaparece, ou brigamos, ou tudo é perfeito, mas falta algo. Eu consigo te descrever desde o fio de cabelo, menina dos olhos, defeitos do nariz, tamanho de pescoço, seios, formato da bacia, volume das coxas e o quanto tu calças. Eu sei o que aprecio em cada uma dessas qualidades e nas que não podem ser observadas. Demora para eu colocar pra fora que te quis e quero.

Sabe, não faz sentido só falar dos seus olhos: que são azuis, você já sabe; a maneira com a qual eles se impõem sobre tudo observado também não é segredo; qual pequeno detalhe eu devo colocar para ilustrar o quanto eles me atraem? Não sei. O mesmo vale para teu corpo, tua mente, teu espírito. Sinto que tua alma me atrai, tua aura me toca- mas se nem os grandes poetas conseguiram falar tudo do amor, quem sou eu pra tentar te dizer? Mesmo a lista completa tem furos, porém, é negligente não listar.

É negligente pois eu hei de te dizer tudo que amo. Mas, quanto mais falo que te amo, você parece não ouvir. É um efeito bizarro: o que eu sinto precisa ser externado, mas entrelinhas parecem inexistentes para você. Se não falo, não te atraio. Se te calo, te espanto. Sem falar do que tenho em mim pra ti, fico angustiado. Preciso falar para que saibas; precisas ouvir para que possas dizer.

Mas não falo. Não ouves. Não sente o mesmo. Não nos unimos. Fico sem voz para ti. Qualquer um vê que perco a vitalidade a cada momento.

Sem mais meios para lhe comunicar, expressar e suceder, ouso pôr em palavras o indescritível, para quem sabe você entenda. Ouso tentar tirar de mim algo essencial, para quem sabe tu sintas o quanto és especial. Tiro da minha mente um pouco de mim, para quem sabe você me tenha contigo…

-R.C.

Ao menos vi um pouco além

Tô tentando achar um equilíbrio
Um meio do caminho
Entre morrer sem limites tão cedo
Ou viver feito velhinho
O suficiente pra olhar pra trás
E ter consciência de que se houvesse mais,
Via menos
Consciência de que viver para sempre
Não podemos
Mas posso ao menos ver meus netos
Mas posso ao menos escrever livros

Enfim,
Há muita vida a ser vivida
Pra gastar numa rotina suicida
Mas também a vida é curta demais
Pra viver num constante estado de paz.

Deveras noturno

Não vejo aura,
Mas se tenho
Deve ser cor roxa violenta
Eu perdi a minha alma
o meu desempenho
Pena,
A morte chega lenta.

-R.C.

Passou já o tempo de ir

Chegou a hora
Eu tenho de deixar de lado
Aquilo que me serviu,
Mas me limita.
Então agora,
Jogo pro passado
Isto que curou,
Mas irrita;
Que inovou,
Mas imita;
Me serviu
Não mais.
Sem mais restrições,
Sem mais precauções
Que seja o que for.

Travesseiro

Os nossos filhos já tinham nome
Nenhum sonho passava fome
Como um ciclo não se consome
O sono agora some
Não creio que foi tão momentâneo
O futuro era certeiro e espontâneo
O presente tão costumeiro tão rotineiro
E sem mais nem nada, foi-se ligeiro
Foi o que eu fiz? Mas o que fiz?
Foi falta de fazer? Eu tinha como saber?
Há jeito de consertar? Você sabe que eu quis
Eu queria um destino, você tão indecisa
Tão sem sentido e não precisa
E eu já pensando em Ezequiel e Maria Luiza