Bolsas de energia

A beleza da olheira é a beleza do trabalho
A ruína da mesma é o jogar-se no assoalho
Sem saber o porquê tudo que faço é falho
Não importa o que tente pra eu não ser falho

Achei que o dom de dormir viesse do berçário.

-R.C.

Branco

A minha vida é uma gritaria de acontecimentos
Mas é o teu silêncio que me ocupa
É um monte de fonemas,
Palavras sem ordens exatas
E a tua reticiencia me enlouquece

Você é a pausa numa f(r)ase incompleta.

Uma pena

Se não bater as asas, o pássaro cai.

Se bater fraco, ele se mantém.

Se bater forte, ele vai subir.

O pássaro, em momento nenhum, sai do nível que quer. Isso faz parte da liberdade do pássaro; ele sempre sabe quão alto ele quer estar, qual caminho ele deve seguir. Quase nunca você vai ver pássaros se batendo no céu, afinal, as nuvens não ocupam espaço, logo, não há porque brigar por este.

Mesmo assim, pássaros não voam todos no mesmo nível. Uns voam mais baixo, uns mais alto- outros, nem voam- e são felizes assim.

Eu queria a liberdade dos pássaros.

Lido

Estou a olhar a 20 minutos
Para sua foto.
Você sorri com todos os dentes
Para o fotógrafo
-eu, no caso.
Falo com a foto.
Ela não responde.

Mando a ti mensagens
Em rede social,
Pelo correio
(Quantas cartas devem ser?
Faz 365 dias já…)
Nelas eu sou triste
Tento falar com você.
Você não responde.

Vou na sua casa
Pergunto por que não podemos
Tentar.
Ao menos outra vez
Você olha nos meus olhos,
Mas não me responde.

Teus olhos azuis
São os mesmos da foto
Você é a mesma garota
Para quem eu escrevo a um ano.
Não igual,
Mas identitária.

Antes falávamos o dia todo
Hoje, você não me responde.

Exigências

Amor pagão
Na fogueira arde
Fui contra o cristão
E deixei de ser covarde
Fogo forte, dor eminente
Logo a sorte foi, de repente
Luto pra poder,
Meu último artifício
Pr’um dia te ver
Farei sacrifício.

Perfumes

Era uma vez um homem
Sedutor de mulheres compromissadas
Não pra causar desordens
Mas para traírem e serem amadas
Comprarem o que do amante
Era mais marcante

O instinto primeiro
De quem abraça
É sentir o cheiro
Antes e depois do amasso

O vendedor de perfumes por inteiro
As queria, de graça
Conquistava-as, com esmero
Tirava-as da desgraça

Nunca possuiria
Completamente
Só o corpo, não a mente

Elas o riam
Sem saber o que sente
Só tesão, ele mente

O vendedor de perfumes
Escondia sentimentos
Como quem tira lumos
De quartos fechados
Hoje coleciona as mulheres tidas
Mas não tem solução de Midas.

-R.C.

Caixas e caixas…

Nesta caixa de cimento
Onde guardamos nossa rotina
E sacramos nossa retina
Vejo caixas e lamento

Sem caixas,
Aos poucos o que se encaixava
Vai embora o que durava
E encaixado coisas menos baixas.

É um quebra-cabeça
De vida toda
Desmontado em remessa
Todavia.

Protesto é inútil
Detesto ser fútil
O material apodrece
Mental só enriquece

Aos poucos encaixo minha vida
Como fosse material
Como fosse normal
Se desfazer da tida.

Dar adeus ou até logo
Pros meus, não me empolgo
Só Deus vai saber
Quanta falta vão fazer.

Mais do que da Sicília
Aquelas unidas famílias
A minha se mantém junto
Encaixando-se pr’outro mundo.