Décimo sexto dia

Hoje, novamente
Comemoro num cemitério
Mesmo tendo sangue quente
Não o levo a sério

Pela segunda vez
Canto a cantiga
No amado português
Não uma menos amiga

Não quero que seja
Antiga tradição
Mas o destino me cheira
À dura traição

Destinado a viver fora.
Fora de mim,
Fora do agora
Fora do grupo, continuo assim

Sem pertencer
Só morte
Não consigo manter
Minha sorte

Lápide detalhista
Poético epitáfio
Se minha morte fosse mal-quista
Contra ela haveriam mil

Mas não, só eu
Num caixão moderno
De quem viaja ou morreu
Ocasião para terno.

Minha sorte não existe
Nem o destino
Nem Deus que hesite
Para socorrer este meino

Nasci na família errada,
No dia errado,
Na idade errada,
E comemoro errado

Celebro a série de falhas
Acidentais até aqui
De novo no sétimo dia
Anterior ao sétimo dia.

-R.C.

Olhe em volta, Renato

Olhe em volta, Renato
Você está sozinho
E por mais forte que você acredite
Os únicos fantasmas no presente
São os criados por ti no caminho
Que percorrestes, tão ingrato, tão chato

Olhe esses pôsteres
Todos rasgados ou riscados
Sujos de azul ou vermelho
Marcas posteriores
A ataques indelicados
Da sua psiquê um espelho

Olhe seu braço
Todo rasgado e riscado
Teu sangue não é azul ou vermelho
É verde ou preto pisado
Pois na vida ser pisado é teu hábito velho
Na sua história tem esse amaço

Olhe pro teu olho
Todo ramificado ou rabiscado
Das veias um forte vermelho
Falta de descanço
Ele nunca é dado
Até dormir é chão quente descalço

Olhe pro teu pulmão
Todo estragado e gasto
Tingido de câncer preto
Resultado da tua necessidade
De fugir pra tal ilusão
Mesmo tendo tão pequena idade

Olhe para tua vida
Toda caída e falida
Sem amigos ou qualquer um
Que se importe contigo mais
Ninguém que saia da paz
Pra na sua depressão dar zoom

Olhe a sua volta
Essas paredes mais são grades do que casa
Todas iguais por causar dor, me solta
Para fazer melhorar
Você já tem a asa
Só falta voar

Olhe para baixo
Tanta altura parece pouca
E se quer saber o que acho
Não seria idéia louca
Daqui de cima se jogar
Só pra ver o que vai dar

Se solte enfim
Para ver o momento final
Afinal, Renato
Você está sozinho até no fim
Não haverá sequer relato
Do seu fim atemporal.

-R.C.

Meu sol

Foi num campo de flores
Que percebi que ainda te amo
Não eram girassóis, tinham outras cores
O insight que tive foi mais insano
Na falta dessas flores vi como a vida mudara
Para uma eterna noite sem lua, por falta de ti
Meu sol
O astro mais brilhoso pro meu mundo
Há outros maiores? Talvez, mas aquela luz não me alcançara
Somente a sua, meu sol
Sou como sua flor predileta
Caído na sua falta
Sempre te olhando indiscretamente
Sem tentar, automaticamente
Devia ter pego pra ti flores de novo
Mas elas seriam ofuscadas pelo brilho do meu sol.