Exageros

Venta muito na sacada
E a fechei com vidros
Quando ficas em mim vidrada
Sinto que os olhos dão tiros

Por isso ando de cabeça baixa
Para não ter que fechar de verdade
Meu rosto da realidade

As plantas estavam grandes
E as tirei do sol
Cansado de escalar os Andes
Dei dois tiros de franol

Quando no tipo grito ao mundo
O que só a ti queria ter dito
Teu amor é muito, não consigo.

-R.C.

Uma gota de grafite num iceberg de papel

Me parece que o tempo, cada vez mais, mais tira certezas do que as confirma.

Eu, que sempre cultivei amizades ao invés de coleguismos- me rendendo uma vida por vezes solitária-, julgava estas primeiras dignas pela profundidade de conversas e idéias, como se colegas não fossem dar a mim aquilo que busco: inspiração e conforto.

Errei. Errei feio.

O escoamento dos minutos tem me mostrado que conexões rasas dão às vezes conversas frutíferas, e também vejo que amizades profundas podem dar muita asneira no papo. Nada contra isso, claro. Mas me surpreende ver rios, possíveis de acabar no oceano (ou um mar, sem problemas) desaguem em lagos ou talvez sequem, enquanto uma poça pode terminar numa geleira.

É possível sentar-se na mesa de um bar e, por um comentário descuidado, não pensado e certeiro, começar uma troca de idéias muito (mesmo) grande e profunda. É possível nunca mais falar com a pessoa após, mas as palavras ficam.

Na falta de rios, poças e lagos na madrugada, me reporto ao papel, chuviscando estes humildes pensamentos. Uma gota de grafite num iceberg de papel.

-R.C.

Alu(n)a

Ela me era Lua
Eu, astrônoma
Queria ser aluna
Dessa luz que só soma

D’uma beleza estonteante
Como fosse Soma
A noite eu sumia
Dedicando a Ela inteiramente

Eu, que não tinha asas
Entraria até na Nasa
Pra vê-la de perto
Fui longe
Fiz força como monge
A tive em meu teto

E então
Sem teto de vidro
Nem pedra no coração
Tive a Lua comigo.

Meta

Falo do amor
Amor por compor
Sem dor de me expôr
Meu mundo impor
Pra quem ler supor
Que entende a dor
Que sente meu amor
Como passassem um sensor
Para ver meu suor
Se não verem, depor
E no clímax de tanto calor
Não vêem o real teor
Dos textos. O maior temor
É não expressar tal amor:
O texto rimador.

Um novo Deus

A natureza cúmplice
É uma de minhas poucas crenças
Raras, excepcionais, não-vice
Uma de minhas contradições e diferenças
Um mundo todo de observador
À olhar-me sentindo a dor

Mesmo não vendo um Deus
Messias, profeta e tal
Os ventos se padecem com erros meus
Se comportando de modo anormal

É simples observação
Não qualquer sobrenatural
Só simples demonstração
Do que acontece no bem e no mal

O sol abre e clareia
Ao som das minhas melhores histórias
A nuvem estraga, ferrenha
Quando assiste as minhas piores memórias

Só um efeito tão bonito
Complexo,
O qual assitir não êxito
Deixa-me tão perplexo
A cumplicidade natural
Vive no campo, centro, área rural

-R.C.

Ofuscando meu protagonismo

Era sempre Sol
Quem sabe rei, Estrela quem sabe
Onde errei? Explique-se
Pois fizeste comigo eclipse
E sou Lua
(Tu, luz nua)
Dá-me energia pura
Só explica como foi feito
Feitiço com tal efeito

-R.C.

Sonho do espelho falho

Refração interessante
Desvia atenção
Para o vidro do amante
O mal amado com má intenção
A velocidade diminui da luz
Da mente, e tudo seduz

Há sentido
Em olhar, da garrafa, o fundo
Existe todo um mundo embutido
Há algo bom sentido

Como houvesse o final de minha depressão
Como houvesse para problemas resolução
Como se nessa tal solução
De álcool e água não houvesse não

Um marco de coragem
Um traço de desespero
Uma vontade selvagem

E sempre espero
Da bebida, a estiagem
Pra decidir sincero

Sem final
Nem toda física do mundo explica
O grande sinal
Que é olhar naquele fundo, uma súplica
De desespero por respostas
Mesmo que as mesmas não venham as mostras.

-R.C