Deveras noturno

Não vejo aura,
Mas se tenho
Deve ser cor roxa violenta
Eu perdi a minha alma
o meu desempenho
Pena,
A morte chega lenta.

-R.C.

Minha água

Nunca foi bom chorar,
Mas de uns tempos pra cá
Acho que as lágrimas ficaram ácidas.
É como sentir fisicamente a podridão da minha alma.

-R.C.

Dos momentos e momentâneos

Da minha vida sou eterno passageiro
Sem ter pontos finais
Um vai-vem nas pessoas,
Viajando por entre almas.

Nunca chegando cedo
Mas sim tarde demais
Outras vem cedo
As demais, muito tarde
Vou embora sempre.

Não tenho casa,
Não tenho a mim,
Só tenho a esperança
De que vou ter um fim.

(Mas nem minha morte viverei-
Ela não me pertence,)

-R.C.

Ficou louco

Tanto tempo em silêncio
Estou com medo da minha voz
Após anos a sós
Tenho medo de mim.
Hoje acordei assim
Apavorado para sair de casa
Sem ter desenvolvido asas
Como passarinho, me arremessam
Com ou sem espinhos não me interessam
O sol faz comigo
O que com as pedras faz
Sou nem inanimado ou antigo
Mas meu corpo aqui jaz
Sem mente,
Morro rápido
Somente
Corro, sólido
De mim. De tudo.
Sempre tem algo lá
Onde estou, o medo está
Pavor tenho, isso não mudará
Meu desempenho cai afinal
Me rendo à vida que vivi tão mal.

-R.C.

Mundo bom

Gritar felicidade
É um bom jeito
De livrar-se do peito

Peso tirado com facilidade
Aquele não demonstrado
Só escondido

Em meio aos sorrisos expressos
Uma mágoa ristretta
À atenção restrita

Seguindo meus passos
Entenderiam tão fácil,
Mas como se não sou dócil?

Olheiras como rojões
Não uso maquiagem
Desleixo como mensagem

Nada dá questões
Talvez porque o que importa
É que sorrindo o mundo me suporta
E ninguém suporta chorões.

-R.C.

Exageros

Venta muito na sacada
E a fechei com vidros
Quando ficas em mim vidrada
Sinto que os olhos dão tiros

Por isso ando de cabeça baixa
Para não ter que fechar de verdade
Meu rosto da realidade

As plantas estavam grandes
E as tirei do sol
Cansado de escalar os Andes
Dei dois tiros de franol

Quando no tipo grito ao mundo
O que só a ti queria ter dito
Teu amor é muito, não consigo.

-R.C.

Permissão pra ser

Eu não pedi pra nascer
Na verdade, não pedi nem pra ser
Esse negócio estranho, pessoa complicada
Meu olho é castanho e a menina emaranhada
De olhar pra rua e ver acidente
De fitá-la nua e ter outra em mente
De querê-la sua sem saber o que sente.

Sou meio mesquinho, egoísta
Queria eu ser budista
É demais pedir uma aura branca?
É demais pedir pr’esse espírito que incapacita
Essa coisa que se mata mas ressuscita
Desaparecer?

Não acho que é pedir demais
Mas nem me surpreendo mais
Eu nem pedi pra nascer.

-R.C.