Luminosidade em Minas – As Crônicas de Um Fotógrafo

Luminosidade em Minas – As Crônicas de Um Fotógrafo

Num mundo de viver-se procurando sombras em cavernas
Contemplo agora minha luz.
Se todos vai procurar saber e serão enganados, minha mãe sempre disse
Não sou todo mundo, não é tudo que seduz
Talvez não sejam grutas, sombras; mas óculos escuros em tabernas
Minha ascensão vem em forma de mulher que escolhe se abre as pernas
Não em bar, nunca foi meu estilo, mas numa biblioteca
De conhecimento da vida, externa
Um Vale do conhecimento tão sagrado quanto Meca.

Minha luz,
Que deu luz à escuridão que o amor me trama
Às inseguranças muitas que ficam claras a chama do sentimento de quem ama
Quem sabe vivemos num mundo no qual vive-se em busca de puro sexo
Mesmo ninguém entendendo qual o nexo
Talvez impulso natural de vida;
Talvez só desejo de diversão
Mas saem em busca de sexo puro
Mesmo que tem demais e de tanto ver são, do anterior, versão
Ainda entusiasmada com coisas estranhas…
Buscam pelo puro, mas a sós veem de incestos a estupros,
De simplicidade de contexto a coisas de revirar entranhas.

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Foto por Nicole Ilário

Para isso não precisei da luz,
A esse tipo de loucura não me expus.

Ah! não sei se somos presos à caverna de Platão, acorrentados e privados de visão
Definhados a ver sombras por toda vida e agradecer pela falta de opção
Mas olho para ela e vejo mais que esperança, mas salvação
Não pra pureza, mas pela certeza, pela convicção
Que mesmo sendo sombra, claramente tem razão.

Brahma e Deus – As Crônicas de um Fotógrafo

Brahma e Deus – As Crônicas de um Fotógrafo

Procurando aventurar-se fora de terras já bem conhecidas por ele Rimor sai pega um avião para uma ilha.

Tendo em mente sua idade (de espírito e cronológica) não é difícil entender o porquê da sua mala estar tão vazia; nela, levava consigo um bloco de papel A5, um estojo com lapiseiras de desenho, sua máquina fotográfica, 3 shorts floridos, uma calça jeans- já muito gasta, rasgada pelo tempo e não pelo modismo-, 5 camisetas claras, uma camisa xadrez, seu único par de tênis, duas garrafas de whisky (compradas com o que sobrou após pagar as contas) e uma mochila de mão. A viagem teria 2 semanas.

Rimor foi para o aeroporto de Uber com sua maletinha e mochila. O motorista perguntou o destino da viagem e foi respondido cordialmente com um: uma ilha. Tentou novamente uma pergunta mais simples; está ansioso? Até que estou. O passageiro não queria conversa.

Felizmente ou infelizmente, sempre fora assim. Rimor preferia ficar sós com seus pensamentos a compartilhá-los ou ganhar conhecimento sobre os dos outros. Na época do ginásio e do colegial deixava os mais exaltados discutirem ou darem as respostas enquanto ele discretamente colocava um fone de ouvido e fazia o trabalho sozinho. Quando indagado sobre os fones de ouvido ou a tarefa pelo professor, só mostrava as páginas feitas e dizia esperar a correção. Sobre os fones, se concentrava melhor com o ruído mais uniforme da música (seja ela eletrônica ou orquestral) do que com o barulho aleatório da sala de aula ou do fuzuê quando as respostas estavam sendo dadas ao professor. No final, todo professor acreditava na história e o deixava continuar naquele estado- mesmo sabendo que era uma meia verdade.

Rimor era muito mais rápido para fazer exercícios do que o aparente. Isto é, terminava os seus em um quarto do tempo da classe (e consequentemente da correção e de toda a cadeia de acontecimentos descrita pelo aluno). O que fazia com o tempo restante?

Bem, as coisas mudavam bastante. No ginásio, ele desenhava. Não como qualquer um que rabisca nas últimas folhas do caderno e arranca depois, alguém que faz objetos obscenos ou qualquer molecagem na mesa ou sequer cópias de coisas vindas de livros. Rimor desenhava cenas, cenários, objetos e pessoas vistas por ele. Se o professor parava em um ponto fixo e a “pose” era apreciada, seria indiscutivelmente desenhada rápidamente- e mesmo após o adulto mudar, ele continuaria a desenhar como se ainda estivesse ali. Se levasse um achocolatado com embalagem diferenciada, seu bloco de folhas seria movimentado para ter mais um objeto no catálogo (até depois de jogar fora o lixo, ele ainda dava os detalhes finais). Quando a menina bonita da sala ia apontar o lápis no lixo e passava na frente da sala, Rimor estava com o seu bloco registrando a passagem com efeitos perfeitos de movimento- depois de ela voltar ao seu lugar, ele desenhava a cena já acabada. Memória fotográfica? Talvez. Mas nada de criatividade. Se não visse, não desenhava.

No ginásio, ele descobriu o poder da câmera. Após ter contato com uma de seu pai, comprou uma com o dinheiro de 3 meses de lanche. Todos os micro-detalhes não feitos por ele nos desenhos poderiam ser registrados com aquilo. Tornou-se um mestre incomparável em ambas artes- a de desenhar e fotografar. Com tanto dom e treino artístico, não era muito bom com pessoas. Claro que tinha seus amigos e amigas, mas eram poucos e fieis, todos cientes de suas “limitações”, e nenhum nunca conversou com ele durante as aulas.

O que nos leva novamente ao Uber, ignorado, a levar Rimor para o aeroporto.

Chegando lá, o motorista recebeu nota 5 de Rimor, mesmo tentado conversar, pois este sabia como era. Despachou sua mala e entrou no avião muito rápido. Não tem medo de avião, mas fica apreensivo em veículos de alta velocidade como trem, avião e etc. A aeronave decolou de Faltário (a cidade) às 22 horas exatamente.

O vôo não está lotado mas por alguma razão, Rimor está sentado ao lado de um homem. O homem é ligeiramente pardo, veste uma camiseta polo verde água e calças cáqui e um chapéu fedora. A figura desperta o interesse do desenhista e ele começa a desenhá-lo. Ao lado desta página, há um desenho de um Alcorão por causa de uma visita feita pelo desenhista a uma mesquita. Quando o figurão percebe estar sendo desenhado, de primeira vai reclamar, mas então vê o Alcorão e encontra uma chance de salvar uma alma.

– Senhor desenhista.

-Desculpe. – Ele se omite, como quem sabe que errou.

-Não se preocupe, não é sobre isso que quero falar – o figurão fala uma mentira – quero conversar sobre este livro que tu tens ai desenhado.

-Este alcorão? Eu não…

-Sim, este mesmo. Onde encontraste para desenhar?

-Fui na Mesquita de Faltário, mas para vis…

-Ah! Conheço lá! Muitos amigos meus vão lá, talvez conheças algum deles.

-Bem, fui lá ver um amigo que estudou comigo no Jonas D’arco, na zona…

-Que interessante, eu estava em Faltário para o casamento de um antigo colega de trabalho que estudou nesta escola… que coincidência, não?!

-Sim, claro. Mas eu…

-Pois é. Bem, puxei o assunto porque vi esse Alcorão e, bem, eu tenho ancestral islâmico, mas meu pai e mãe são ateus.  Tu és..?

-Rimor.

-Ah, prazer. Mas de ancestral?

-Nada muçulmano, acredito.

-Bem, eu fui criado nesse meio. Até certa idade até flertei com a idéia da divindade mas a larguei. Virei jovem e comecei a ir em festa, beber, fumar, falar palavrões, como você deve estar fazendo. Não procurava nenhuma paz, nenhuma verdade. Aí, em dezembro de 2015, eu estava numa dessas reuniões na casa de um amigo e fui fumar um cigarro na rua. Lá, uma mulher passou e me chamou. Eu respondi sem sair da frente da casa. Ela olhou para mim e falou: “Em exatamente seis semanas você vai receber um milagre econômico de Deus. E vai ser do Deus cristão e só deste.” Eu fiquei curioso, quis perguntar de várias coisas como óvnis, guerras, meu futuro e tudo mais. Ela só me falou que isso era o que deus havia a falado, me deu um cartão e foi embora, nenhuma das minhas respostas respondidas. Exatamente seis semanas depois meu superintendente da faculdade me ligou e me falou que eu tinha conseguido uma bolsa de estudos de 50 mil reais, a que eu já estava perdendo as esperanças de ter. Eu ia para a europa fazer alguns cursos maravilhosos. Após essa experiência, eu comecei a aceitar melhor a idéia de algo maior, mas não uma cristandade ou qualquer religião.

-Nossa, parece uma situação inusi…

-Sim! Só que eu não podia acreditar que era coincidência, entende? Ninguém pode prever o futuro! Enfim, eu deixei isso de lado e fiz meus estudos, mas aceitando a idéia de uma entidade. Continuei bebendo, fumando, indo em festas e tudo de mais, só que aceitando isso melhor. Até que 8 meses depois, enquanto eu conversava com um amigo, eu ouvi uma voz. Eu sentia ela falando de dentro do meu coração, e ela dizia: “vá comprar uma bíblia e ler sobre Jesus Cristo e seus ensinamentos”. Eu achei que tava ficando louco! No meio do nada, só ouvi isso na minha cabeça; imediatamente eu fiz isso mesmo. Comecei a ler sobre ele e vi como ele é daora- poxa, ele curou todas as doenças possíveis- e o melhor é que ele está vivo! Ele ressuscitou e voltou ao reino dos céus e está lá olhando por nós! Depois disso, eu parei com tudo aquilo porque eu tinha uma paz interior, entendeste? Eu aceitei Deus e ele veio pro meu coração e logo depois eu aceitei Jesus e ele hoje mora ali! Por isso eu acredito do meu Senhor e meu Salvador, o Único; não Mohamed, Buda, Alá ou qualquer outro deus. E nenhuma religião vai te responder nada. O único que pode te responder suas perguntas é Ele, e tens de perguntar por ti.

-Nossa, deve ter sido transformador. Só que eu já estudei cristiansmo e eu…

-Olha, por isso que quando eu te vi com esse Alcorão desenhado eu tive que falar contigo; e que coincidência! Alguém que estudou com meu amigo! Olha, faça isso: vá numa livraria, compre a bíblia e leia sobre os ensinamentos de Jesus Cristo! Verás que Ele faz milagres, cura doenças, faz tudo! E além disso, pergunte tu tudo o que quiser a Ele. Não vá a uma igreja buscando cura, milagres, peça tu. Tu, Rimor né?, irás…

Nesse momento, o avião (que já estava com algumas turbulências que, para a infelicidade de Rimor, não interromperam o pregador disfarçado de modelo perfeito, com chapéu fedora e tudo mais excêntrico) dá um baque forte e começa a apontar o “nariz” para baixo. O piloto anuncia que o controle sobre a aeronave é mínimo e as máscaras de oxigênio são liberadas. Após ambos colocarem as máscaras, o figurão pega uma folha de papel e escreve em letras capitulares “DEUS VAI DAR-TE UM MILAGRE SE PEDIRES. PEÇA!”. Em resposta a essa mensagem, Rimor pega a câmera e tira uma foto do figurão- se sobrevivesse a esta queda, não perderia toda a encheção de saco por nada, teria uma foto boa (e ela realmente ficou). Poucos segundos após colocar todos seus pertences na mochilinha de mão e abraçá-la com força, Rimor desmaia.

•••

Acorda sentado em sua poltrona do avião. Quando abre os olhos, vê longe os destroços do avião afundando e envolta de si alguns outros. Não entende muito bem o motivo de estar tão ensolarado (meio-dia quase) se estavam voando a noite, ou como ele está ali, tão longe do avião. Ou como sua maleta e mochila estão a alguns metros, na areia, secos. Ele se solta do cinto e cai na areia da praia onde está. Onde está?

De primeira pega seu celular e ele está quente demais para ser ligado. Segundos depois, uma onda vem forte e o assusta, derrubando o celular na água- que ao pesar de resfriá-lo e resfriar o celular, o fez inútil.

Não há ninguém ali naquela praia além dele. Olhando envolta de si, não vê nada perto na verdade. Só água e algumas palmeiras. Anda até suas coisas, as leva para fora da areia e senta debaixo de uma das árvores e abre seus pertences. Tudo em perfeito estado, só bem quente. Tira a camisa e coloca uma branca para sentir menos calor.

Olha para as duas garrafas de whisky e pensa se vale a pena abrí-las agora. Decide que não, as deixaria para depois. Por hora, o importante seria descobrir onde está. Refazendo o caminho do avião de cabeça, ele devia estar em algum lugar entre Brasil e o continente africano, pra cima do cabo da boa esperança; mas onde? Quanto tempo ele ficara desmaiado até descer? Quem o levara para a ilha?

Lembrou-se da mensagem do figurão religioso. Ele nunca pedira um milagre de Deus e nem uma prova, não por teimosia, mas por não sentir necessidade nenhuma de divindade para lhe responder o sentido da vida. Será que após todos estes anos, ele estava errado?

Quando as dúvidas ficaram próximas de iniciar uma cadeia de loucura que seria muito mais difícil parar do que foi começar, ele percebeu algo: o mar. Pela primeira vez em anos, ele tinha todo tempo do mundo para desenhar o que via- o resgate havia de vir e desespero não resolveria muito. E foi o que fez. Pegou seu bloco e saiu desenhando. Quando sua mão cansou, ele descançou um pouco e decidiu ir tirar fotos floresta adentro. Guiaría-se pela bússola da câmera e buscaria algo para comer.

Andando devagar e registrando muito em fotos extremamente artísticas e naturais simultaneamente Rimor se distraiu da loucura que inevitavelmente, sem civilização, chegaria. Mas, durante cinco horas, ele se dedicou a desenhar e fotografar, sem mais e nem menos, achando comida, voltando pra praia, aproveitando mais do que deveria.

Deitado, olhando um pôr-do-sol em expectativa, percebe quão perdido está, e que nem toda a arte do mundo o tirará disso. E então olha para trás e vê as duas garrafas de whisky. Pega uma e enquanto abre, vê as fotos tiradas e vê figurão. Sem saber o que aconteceu com ele, pensa em sua última lembrança dele com a mensagem.Será Deus a força que o deixara vivo ali?Deveria ele zangar este deus?

É aí então que Rimor se depara com o dilema de todo artista em depressão, tendência suicída ou trauma: a religiosidade ou o vício.

O vício é a escolha do garoto, e é assim que ele mata somente em 4 horas ambas garrafas. Como ele não morreu? Não sei. Não se sabe. Mas o fato é esse. Assim como sobrevivera o avião, sobrevivera o álcool. Jogando a segunda garrafa  no mar e rindo desesperadamente de algum pensamento engraçado, Rimor desmaia caindo na água.

•••

A lua está no seu ponto mais alto no momento em que Rimor é acordado com um pé mexendo sua barriga. Ele não acorda, então é jogado no mar. Assustado, grita todos os palavrões lembrados na hora enquanto tira a camisa e a água dos olhos. Olha para frente e vê claramente a figura de um homem velho. Ele é moreno como quem toma sol diariamente, não tem barba alguma (estranho pra idade aparentada), usa uma boina creme, óculos redondos, calça social creme e camiseta amarela.

-Vejo que está assustado. Não se preocupe. Pegue suas coisas e vem, vamos dar uma caminhada! – o velho diz animado, com um sorriso enorme no rosto.

Antes de beber, Rimor havia colocado tudo na mochila e abandonado o uso da maleta, então, ele só coloca a mochila nas costas e anda com o desconhecido. Essa é a primeira vez na qual a situação o faz sentir arrependido por não ter comunicação melhor. Andando pelas areias, ambos ficam em silêncio.

Por algum motivo, a bebedeira havia passado e não havia dor de cabeça, só mal jeito na coluna pela posição e lugar no qual dormiu. Esta dor o faz andar desconfortavelmente

-O que você tem aí? – o velho pergunta

-Uma dor nas costas por não dormir direito.

-Não direito, de um jeito o qual você não está acostumado.

-Eu costumo a dormir de muitos jeitos.

-Sim, mas não sem apoio algum, aposto. Se você ir removendo pouco a pouco o apoio, você estaria acostumado. Primeiro, na sua cama. depois, numa outra cama mais dura. Depois em uma mais ainda até dormir no chão. Aí, dormir em um monte de travesseiros, ai dormir em pedras Então dormir em um chão de floresta. Por fim, dormir na areia.

-Até que faz sentido….

-Claro que faz – o velho solta novamente o mesmo sorriso.

Continuam andando um tempo na praia enorme. Rimor, mesmo confuso e com receio, continua a caminhada regularmente, pensando na metáfora nem-tão-boa do velho. Na caminhada, vê a lua em um estado muito perfeito e pega seu bloco para desenhar. Quando passa no Alcorão, nota que o velho viu o tal desenho.

-É um alcorão. Eu desenhei por achar interessante, não sou islâmico.

Eu sei  o que é o Alcorão e vejo que você não é.

-Você conhece o islã?

-Claro. Conheço a essência do islamismo, que é a família. Para eles é a instância mais importante da humanidade. Pro católico, é a compaixão. Pro protestante, o trabalho.

-Sim, com certeza. Qual a sua religião? – Rimor começa a quebrar o antissocial dele para depois conseguir entender o que acontece, mas também interessando-se na conversa.

-Todas elas, mas sigo o hinduísmo. Todas elas querem a mesma coisa, entende? Só muda a essência, que é a base de qualquer religião. É envolta dela que se molda ela inteira. O islã tem como essência a família. Cristãos tem a compaixão. Protestantes o trabalho. Budistas a paz. Todos buscam a mesma coisa; que é a Verdade. Todos querem a Verdade. Religiões são como escadas que levam para o mesmo Templo, mas caminhos diferentes. Todos passam a vida procurando o templo e argumentando sobre qual caminho seguir, quando qualquer um deles você chega no Templo. Mas no final, essa é a vida, procurar o seu caminho, sua Verdade.

-Nossa… isso fez todo o sentido…

-É porque é a sua Verdade. Não porque eu falei, mas porque você vê sentido nisso. Se você ir até uma criança e oferecer um brinquedo, um chocolate, ela faz de tudo por isso. Pra um adolescente, garotos(as), festas, diversão em geral. Para um jovem adulto como você, dinheiro, casa, um(a) parceiro(a), tempo pra passar. Para um adulto, a família. Para um velho como eu a Verdade é só a família e a religião.

-Que louco… quem é você?

-Um senhor. Somente um senhor. Bem, suponho que devo ir agora. Adeus.

-Mas…

O velho entra por entre as árvores e, por algum motivo, Rimor sabe que seguí-lo não adianta. Após um diálogo tão  impressionante, ele segue andando sozinho fazendo a reflexão sobre tudo o ouvido, desde o milagre prometido pelo figurão até o velho hindu a te falar que todas as religiões são as suas.

 

 

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No final da praia, Rimor vê de longe um farol enorme. Suspira aliviado de ver que, havendo ou não gente por ali, um farol é o jeito perfeito de pedir ajuda para qualquer navio que passe. Adentrando a floresta procurando um caminho, vê vários de madeira mas tem um pressentimento estranho. Uma delas é bem aberta. Ali, Rimor vê a possibilidade de simbolizar seu dia com uma última foto do caminho escolhido por ele- não pro céu ou coisa do tipo, mas para o farol e para a vida. Mesmo mantendo-se ateu ou agnóstico, a espiritualidade agora segue ele.

 

 

Terror urbano

Após o enorme sucesso dos super-heróis a vigilância tomou conta das ruas das cidades. Acabou-se com privado, vive-se na era das câmeras.

Passando pelas casas, todas tem o olho mágico digital, tornando segura a entrada e saída do lar, prevenindo assaltos e vandalismos.

Claro, também revela acontecimentos nunca antes vistos, como o casal se agarrando ao lado do portão, inofensivo, anteriormente infalseável se aconteceu ou não. Revela o escritor conversando sozinho na rua escura.

De carro, cá no centro, encontram-se os seguranças eletrônicos. Impedem invasões, assaltos a queima roupa, roubo de carros e de vendas.

Também ajuda a esconder a droga quando a polícia vai passar, caso entre para fazer revista. Ajuda a tapar a boca da criança sequestradas que tá no porão.

No topo de cada prédio tem um observador oculto, que ajuda em todos os eventos acima.

Porém, ela não só observa. Ela também faz circular.

Circula opressão pela vigilância. Circula o medo de ser pego fazendo nada demais. Circula o medo de ser mal entendido em um ato e ir a cana por isso. Circula o medo de ser o próximo alvo da violência, e isso lhe faz colocar mais uma.

E outra do lado oposto.

Mais uma dentro de casa, a empregada pode estar roubando.

A criança pode ser drogada, coloca ali pra ver o que ela faz.

O cônjuge pode estar traindo, no quarto também.

Hackeia a do celular, nunca se sabe pra onde está a essas horas… fala de trabalho mas pode estar na farra.

Ponha uma em mim também, será que mexem comigo de noite?

Uma na bolsa, talvez tenham me roubado e nunca iria perceber, mesmo olhando por todas as outras.

Ponha uma nas cabeças, vamos descobrir quem pensa coisa errada e punir.

Parece que agora todo mundo é uma câmera, e nem tem mais como se esconder.

Uma (rápida) história de amor dinâmico- As Crônicas de um Fotógrafo

Conheci Maria num lugar diferente: em baixo de um poste.

A gente se trombou ali, deixamos as malas caírem e aconteceu, como se fossemos Eduardo e Mônica. Sem querer, trocamos algumas folhas (por acaso, importantíssimas pra minha prova em 1 semana), e em uma delas tinha o nome dela, e no momento em que percebi o sumiço de tudo, procurei-a imediatamente no Orkut (sim, ainda era assim naquela época).

Começamos a conversar um pouco; ela estava cursando engenharia, eu psicologia. Ela amava física, eu gostava mais de estudar o físico humano. Ela amava São Paulo e o Rio, eu queria era Dubai, Buenos Aires e Toronto. Eu chamei ela pro teatro, ela quis ver filme alugado (posteriormente seria um netflix, mas enfim).

Rápidamente nos tornamos amigos. Ela namorava um tal de Gabriel (gostava do cara mesmo) e eu tava caindo por ela. Digamos que eu não tinha ciúme, mas mesmo assim ela nunca dava muita bola… até o dia que eu chamei ela pra ir pro campinho tirar foto.

Nesse dia ela me viu de um jeito diferente. Como psicólogo, sempre amei estudar a mente através de expressões artísticas e me tornei um fotógrafo. Olhando para ela, tirando suas fotos… ela simplesmente me amou. Em cada flash, senti-me mais amado e mais importante. Em cada pose ela se deixava amar mais, se deixava mais aberta. Uma semana depois, Maria terminou com Gabriel.

Eu não acreditei quando me contou. Ela veio em minha casa, abriu a porta sem pedir pra entrar e chorou. Não porque tinha terminado um namoro de 2 anos, mas porque pensava mais em mim no que em Gabriel. Ela chorava enquanto pedia desculpas por confundir tudo e estragar nossa amizade, sem saber se tentava voltar para ele, mesmo não o amando.

Eu olhei para ela e disse que não havia porque se desculpar, pois o sentimento era recíproco e a relação podia crescer (e muito) com o tempo e profundidade.

Nesse dia, nos beijamos pela primeira vez.

Já estávamos terminando a faculdade, então logo começamos a morar junto- já nos conhecíamos a 1 ano e meio, mesmo o namoro sendo recente.

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Foto por Márcia Kaori

A gente saía sexta para o bar, sábado pro cinema, domingo em casa. Fomos pra Dubai, moramos 1 ano no Rio e voltamos pra Sampa. Visitávamos exposições, teatros e vimos todos os filmes do Netflix. Ela via todas as minhas fotos, eu tirava um monte dela. Eu atendia pessoas na rua de baixo, ela fazia projetos na sala de casa.

Passaram-se 3 anos após o início dessa rotina, e algo extraordinário aconteceu: uma casa foi construída na frente daquele poste e tiveram que derrubá-lo. Felizmente, o dono da casa não quis deixar o lugar escuro, e colocou um “lustre” velho para ajudar… peguei minha câmera anteontem, tirei uma foto dali e mostrei para Maria. Não contei que vou pedir ela ali, mas…

Será que ela aceita?

A cleptomania- As crônicas de um fotógrafo

Fotógrafa- Petra Collins

O carro treme. Não deveria, mas o modelo antigo e a falta de cuidado de Jonas fizeram-no ficar completamente perigoso. Dá-se a partida, todos já estamos prontos. De praxe, já estamos em nossos lugares praticamente pré-definidos.

Sendo o dono,Jonas não confia em ninguém além de si (e Carol, após 1 ou 2 shots de Cuervo) para dirigir, ocupando, naturalmente, o banco do motorista. Por conhecer toda a São Paulo desde quase feto, fico no passageiro, direcionando o caminho para seja lá onde é o destino. Carol, minha companheira de quarto na república, (além de backup para motorista) divide o banco de trás com Vic e Nando, e, na maioria das vezes, decide qual será o programa da noite. Vic chama as outras pessoas, que regularmente comparecem aos encontros, mas o grupo dos 5 sempre está junto. Nando é o cara das bebidas, fumos e tudo mais, apesar de ter sido o último do grupo a fazer tudo aquilo.

Hoje, vamos a um bar chamado Zeppelins. Pequeno, elegante pelo tema tão apreciado por todos nós, o Rock, permissivo com arguilés. Se tornou um destino frequente do grupo nos últimos tempos.

Chegamos ansiosos pela noite, saindo do carro rapidamente, parte por ansiedade, parte por medo do veículo acabado.

– Vocês são uns ingratos. Eu vou na casa de todo mundo, busco, dirijo, e vocês menosprezam o Larry.

– Tem razão Jonas. Melhor a gente tratá-lo melhor, vai que resolve quebrar na volta…- Nando responde, quase como se estivesse aguardando algum comentário. As piadas continuam sendo feitas, um aquecimento para a noite.

Permaneço quieto. Tenso com a faculdade e situações familiares, simplesmente fico olhando a interação, feliz por estar ali ao menos tentando me distrair. Todos sabem do meu estranhamento, mas tem noção do que deve ser feito. Olhando em volta , meus olhos vão ao encontro de um homem alto, com cabelo grande e grisalho, preso num coque, deixando uma imagem neutra.

– Júlio!

– E aí Zack! Como estamos?

– Muito bem, viemos  passar a noite por aqui. Muito movimento hoje?

– Pequeno, mas vai crescer. Chamamos umas bandas pra tocar hoje, vai ser uma loucura… fica esperto em moleque!

– Relaxa, vou ficar bem hoje!

– Até parece. Bem, vou lá pegar uma cerveja, quer o de sempre?

– Uhum, pode pedir pra trazer uma rodada normal enquanto não sentamos.

– Então seria 1 Sobi com 1⁄3 Jack, 3 Corona com limão e o Blood?

– Isso mesmo. Valeu, Júlio.

Olho pro lado, notando nos acontecimentos simultâneos a essa conversa com meu velho conhecido. Nando já está em cima de uma garota aleatória; Vic e Jonas falam de literatura ou algo do tipo (posso jurar que ouvi o termo Kafkaniano) e Carol observa atentamente a mesa ao lado.

Pode ser observado um grupo de 8 pessoas, todos homens. Todos tomam cerveja barata, do tipo que Júlio sempre tentou remover do cardápio de bebidas, mas a natureza do público varia muito, tornando assim impossível essa possibilidade. Há alguns litros ali, denunciando uma expectativa de noite longa e uma disposição clara para gastar dinheiro na maior quantia de álcool possível. Conheço aquele olhar. É o olhar de quem está muito interessada em algo.

Qualquer um, de primeira, ao tentar decifrar esse momento, falaria de interesse sexual profundo dela por algum deles. Sua pupila está dilatada, seus lábios rosa secaram e sua respiração é quase manual de tão profunda. Quase acertaria neste palpite, exceto no tipo de interesse e o objeto de interesse.

Vou até ela, seguro seu braço levemente e puxo seu olhar ao meu. Ela entendeu a mensagem. Dá um sorriso travesso, como criança aprontando escondido.

O momento é atrapalhado quando alguém me empurra, fazendo assim eu cair em cima de minha amiga. Olho agitado para trás, pronto para começar uma confusão quando vejo Nando e a tal garota se agarrando. Ele olha pra mim em tom de desculpas, mas continua com a garota. Seus olhos castanhos são doces e calmos, parecidos com os de um surfista olhando uma boa onda.

Desvio deles e sento com Jonas e Vic. Nesse momento, o garçom traz as bebidas, dá meu Crovral (nome dado por mim ao meu drink predileto) e as cervejas na minha frente, deixa a de Nando de lado e entrega o Blood para Carol, que se aloca ao meu lado. Dou um toque em Jonas: é o momento perfeito para o Anúbis.

Vamos até o carro. No porta-malas pegamos uma mala preta velha, porém conservada. Junto por acaso, vejo minha velha câmera e pego-a, para alguma diversão. Entramos novamente no bar, e em nossa mesa é retirado o tampão do meio, revelando uma tomada, uma torneira e espaço vazio. Tiramos a peça da mala. Ele é grande, bate quase no meu peito. Seu vaso é totalmente preto, com detalhes talhados por relevo no formato de um dragão. O corpo é metálico, respiro de dado vermelho elegante. O rosh é de cerâmica, também preto, mas com linhas irregulares saindo do centro da cabeça. A mangueira é de veludo preto igual, porém, a pateira e o aveludado são igualmente brancos. Quando terminamos de montar, acender o carvão, preparar a essência e tudo, iniciamos a sessão.

Não propositalmente, todo o bar para afim de ver a preparação do nosso Anúbis (apesar de este não ser o modelo, o nome simbólico ficou) uma obra de arte greco-egípcia ou árabe. Chamamos tanta atenção que, nesse momento, Júlio bota a primeira banda no palco, para aproveitar a união feita.

É uma boa música, como de se esperar de uma escolha feita por alguém tão experiente quanto meu amigo. O show anima o público presente no Zeppelins e atrai ainda mais galeras.

Após 3 horas de música (e 2 sessões perfeitas) acabam os shows e o panorama é de mistura total. Nando e Luana (seria esse o nome dela, aparentemente) vão para o carro e agora praticamente todos têm uma companhia amorosa. Praticamente, pois eu e Carol, apesar de juntos, não somos um casal. A situação muda quando, repentinamente,uma loira senta na minha frente. Pergunta da câmera em meu colo, e conta do curso de fotografia que está fazendo e… eu realmente não me importo. Mas sigo com a conversa, regularmente parando para olhar Carol (normalmente quando o clima fica propenso ao beijo; eu realmente não to com cabeça para isso).

De súbito, perco meu álibi, pois ela sai andando. Sinto vontade de ir atrás dela, mas a garota segura minha nuca e pressiona sua boca em um beijo forte e caloroso. Infelizmente, sou fácil assim: foi dá-lo, entro no exato clima da noite. Ficamos quase 20 minutos nos beijando, quando ouço uma garrafa quebrando.

O vidro se espalha por todo o chão, junto do líquido, mas o mais espantoso não é o objeto em si, mas o porquê da queda. Olho um pouco acima da (ex)garrafa e vejo Carol muito perto de um cara. Já vi isso tantas vezes que, sem ter notado nos acontecimentos anteriores, sei a cena completa.

Primeiro ela saiu de perto de mim, que impediria-a de começar tudo. Chegou perto de um dos rapazes, obviamente interessado nela, e deu em cima dele. O oculto nessa interação é a razão de ela estar ali, mesma razão do interesse dela mais cedo naquele grupo: o dinheiro. Ela viu neles carteiras recheadas, celulares novos  e chaves de carros caríssimos. Mas não, o dinheiro não é motivo para ela ficar com os caras, mas sim para furta-los. É comportamento natural dela uma aproximação com essa atividade, e os estaria acontecendo, se ela (por um descuido raro) ao tentar pegar a carteira da mesa, não tivesse derrubado a garrafa no chão, levando à tona todo o plano. O garoto agora estava vermelho, tanto pela vergonha que a atenção excessiva deu-lhe quanto pela raiva de estar sendo enganado.

Por ironia do destino, Nando guardara o Anúbis, e estava com a chave do carro na mão entrando junto de Luana, quando reconhece a mesma cena que eu. Jonas e Vic imediatamente se encaminham para separar seja lá o que começava, mas já era tarde. O álcool mexera com a cabeça do homem e ela estava feita para espancar minha amiga. Vou rapidamente entre os dois. Entendo a raiva dele, porém, Carol é próxima e sempre fazemos a devolução de seus pequenos delitos, seja em bebida, seja na própria conta que, surpreendentemente, diminui. Não há sequer chance de diálogo. Olho em seu rosto, e há veias e artérias saltando deste e do seu pescoço. A mão fecha com força mas não velocidade, denunciando a lerdeza do álcool e a covardia do soco inglês que é intencionado. Empurro Carol para o lado e seguro o braço do homem, já dando o primeiro golpe em seu rosto. O segundo é na barriga. O terceiro sou eu que tomo, bem firme no rosto.

Chega alguém e expulsa os envolvidos na briga do bar, e pelo toque das mãos sinto ser Júlio, pois ja não vejo nada. Sinto o efeito de todos os drinks de uma vez e sento-me no chão.

Ao meu lado, algo embaçado parecido com algumas pessoas se sentam. São 4 fumaças não muito claras, 3 pequenas e 1 grande. Parecem uma massa homogênea que, de alguma forma, consigo distinguir. Não ouço nada, mas sinto a presença parecida com a dos meus amigos, e assumo ser essa a tal companhia. Após 30 minutos, a tontura diminui e fica somente a dor do soco, junto de uma garrafa pela metade de nome indecifrável e uma conversa profunda entre os membros daquele grupo. Pego a câmera, mas agora não é o momento.

Jonas olha nosso estado e deixa as chaves com Júlio (que apesar de me expulsar do bar, entende o motivo) e vamos juntos andando para as nossas casas.

Pela ordem, devo ser o primeiro, pois a República fica ao lado da ponte  por onde passamos a caminho do Zeppelins. Ela é estaiada e escura à noite, porém, pelo tamanho do grupo não nos preocupamos com assaltantes. A lua está em seu ponto de descida, e a luz bate em meu rosto, me convidando a sentar no meio da avenida. E é isso que faço. Claro, sou taxado de louco nos 5 primeiros minutos. Depois disso, aos poucos ,todos sentam, e ficam observando o luar ao meu lado. O céu é claro com nuvens rápidas, como se fugissem de seu destino final, ao contrário da lua, imponente em seu lugar, abraçando seu fardo de dar espaço ao sol. Por sorte, nenhum carro passa, e depois de um bom tempo, levantamos e saímos andando.

Ao chegar no portão de ferro enorme, eu e Carol nos despedimos de todos com beijos e abraços. Nos olhamos com cumplicidade. Se nossos colegas de quarto soubessem disso…

Ela atravessa a porta, adentrando a casa. Silenciosos como dois criminosos, encaminhamos-nos ao banheiro. Sob a luz de um amanhecer que se inicia, nos olhamos, felizes pelas besteiras feitas, gratos pelas evitadas. Coloco a cabeça na pia, tomo três golpes d’água, e deixo a torneira aberta. Ela coloca cabeça, e, nesse momento, o sol sai com a maior vontade. Pego a câmera, focalizando aqueles lábios rosados, cansados de uma noite de fumaça e bebida, mas (assim como eu) prontos para outra aventura a partir do momento em que a água gelada toca a boca.

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