Permissão pra ser

Eu não pedi pra nascer
Na verdade, não pedi nem pra ser
Esse negócio estranho, pessoa complicada
Meu olho é castanho e a menina emaranhada
De olhar pra rua e ver acidente
De fitá-la nua e ter outra em mente
De querê-la sua sem saber o que sente.

Sou meio mesquinho, egoísta
Queria eu ser budista
É demais pedir uma aura branca?
É demais pedir pr’esse espírito que incapacita
Essa coisa que se mata mas ressuscita
Desaparecer?

Não acho que é pedir demais
Mas nem me surpreendo mais
Eu nem pedi pra nascer.

-R.C.

Ciências

Conhecimento
É bom sempre, visível
Traz tormento
Paz impossível
Mas é alimento
E imprescindível

Já passaram milhares de anos
A discussão permanece igual
Platão apontava a outros planos
Seu discípulo ao visual

Misticismo
Ou realismo?
Entre ambos o enorme abismo.

Filosofia humana
Ou metafísica divina?
Seguir aqueles da retórica
Ou a natureza mitológica?

-R.C.

Caos, só caos

Quer-se da vida
Fazer romance,
Mas o passado
É o que acontece
Nada mais que acontecimento
Atrás de esquecimento.
Vive-se no hábito
Situação cômica
Querem ligar todo fato
Mas é livro de crônica.

-R.C.

Desespero

Não tenho tempo
Nunca o tive, nunca o terei
Pressa inútil, te direi
Pois deste caminho não sou rei

Não funciona comigo
Do mesmo jeito que com os outros
A escola é o menor mal
O seu conjunto aterroriza

Presente inútil
Preocupações bobas
Futilidades inteiras

Quero a realidade
Não aguento mais cópias
Quero sair dessa imitação.

-R.C.

Karma

Não existe gente boa
Todos tem defeitos
Fazem crueldades

O destino não existe
E o acaso te coloca nas piores situações
Não tem o que fazer
Se não algo “ruim”

Se ele existe
E o karma sua consequência,
Todos morremos eventualmente
Sinal que algum momento
Fizemos algo digno de morte

O ser humano é um lixo.

-R.C.

Lugares impossíveis

Procuro amor em todo lugar
Mas sempre que amo não sou
E sempre que sou não amo
E me prendo a maus amores facilmente

E não vejo lugar errado pra procurar
Só um que nunca acharei e nem acho
E é dentro de mim
Ali nem tento

Sei que não há interesse
Sequer amor
Sequer reciprocidade

Então não tento
E continuo nos maus-amores
Ou no não-amar.

-R.C.

Pseudário do crescimento

Como posso ser menino
Se até ontem havia barba em meu rosto?
Não que tenha sido repentino
Sem ela é mais difícil dar desgosto
O rosto fica pelado
A pele, os erros, deixa de lado.

O garoto joga,
Ele brinca com a vida
Tenta até ter gana
Mas a verdade é indevida

Esforça para o gol
Volta e toma dois
Não culpa dele que depois
Seu time não mais jogou

O grupo de trabalho
Saiu uma merda
Ficou colcha de retalhos

O garoto joga, sem medo da morte
Tantos amores sem nenhuma herda
Até que mesmo prevenindo, pediu que aborte.

Como posso não ser menino
Se não aprendi a lidar com tudo?
A idade bateu um sino
Com o qual me tiraram o escudo
Agora só me colocaram pra viver
Sem a mínima idéia do que fazer.

-R.C.