Correntes

Livre de amarras, raízes
Eu vou onde quero
Ainda preso nos teus dizeres
Me espere que te espero

Livre para pensar nestes ares
Democracia no ponto singelo
Mas penso em outros pares
Eu imitaria o grande Nero

Liberdade suficiente
Pra beijar qualquer um
Mas que tua boca me alimente

É meu desejo comum
És livre pra ser experiente
Quero que não tente nenhum.

-R.C.

Armas não combinam com livros

Instinto
É distinto
De distintivo

A farda
Só é fardo
Deixa fadado

Nem fada
Confabula
É fábula.

A bula
Fica bolada
E burlada

A lei
Quer leitura
Ah lei dura

Só dura
Se durante
For de diamante

Só segue a diante
Quem lê antes
Que interessante

Interesse
Em internar
Faz exterminar

O externo
É eterno
Pros ermos

Todo ermo
Tem seu termo
Seu instinto

Sem distintivo
Com instando
Se distingue

Distinguido
E diferente
Pouca gente.

Sou tudo, sou nada

Eu pessoa
Eu ego
Altéres a toa
Caracteriso cego

Eu alma
Eu espírito
Ninguém se salva
Mas eu até minto

Eu corpo
Eu invisível
Há algo no copo
Líquido sensível

Eu mente
Eu sensação
Ninguém entendo
O poder do não.

Lido

Estou a olhar a 20 minutos
Para sua foto.
Você sorri com todos os dentes
Para o fotógrafo
-eu, no caso.
Falo com a foto.
Ela não responde.

Mando a ti mensagens
Em rede social,
Pelo correio
(Quantas cartas devem ser?
Faz 365 dias já…)
Nelas eu sou triste
Tento falar com você.
Você não responde.

Vou na sua casa
Pergunto por que não podemos
Tentar.
Ao menos outra vez
Você olha nos meus olhos,
Mas não me responde.

Teus olhos azuis
São os mesmos da foto
Você é a mesma garota
Para quem eu escrevo a um ano.
Não igual,
Mas identitária.

Antes falávamos o dia todo
Hoje, você não me responde.

Exigências

Amor pagão
Na fogueira arde
Fui contra o cristão
E deixei de ser covarde
Fogo forte, dor eminente
Logo a sorte foi, de repente
Luto pra poder,
Meu último artifício
Pr’um dia te ver
Farei sacrifício.

Perfumes

Era uma vez um homem
Sedutor de mulheres compromissadas
Não pra causar desordens
Mas para traírem e serem amadas
Comprarem o que do amante
Era mais marcante

O instinto primeiro
De quem abraça
É sentir o cheiro
Antes e depois do amasso

O vendedor de perfumes por inteiro
As queria, de graça
Conquistava-as, com esmero
Tirava-as da desgraça

Nunca possuiria
Completamente
Só o corpo, não a mente

Elas o riam
Sem saber o que sente
Só tesão, ele mente

O vendedor de perfumes
Escondia sentimentos
Como quem tira lumos
De quartos fechados
Hoje coleciona as mulheres tidas
Mas não tem solução de Midas.

-R.C.

Caixas e caixas…

Nesta caixa de cimento
Onde guardamos nossa rotina
E sacramos nossa retina
Vejo caixas e lamento

Sem caixas,
Aos poucos o que se encaixava
Vai embora o que durava
E encaixado coisas menos baixas.

É um quebra-cabeça
De vida toda
Desmontado em remessa
Todavia.

Protesto é inútil
Detesto ser fútil
O material apodrece
Mental só enriquece

Aos poucos encaixo minha vida
Como fosse material
Como fosse normal
Se desfazer da tida.

Dar adeus ou até logo
Pros meus, não me empolgo
Só Deus vai saber
Quanta falta vão fazer.

Mais do que da Sicília
Aquelas unidas famílias
A minha se mantém junto
Encaixando-se pr’outro mundo.