Começos bons

O ano era 2016

Eu atravessava a rua

Pra pegar o 513L-10

Quase sempre atrasado

Eu e o transporte

Quase nunca rejeitado

Mesmo quase sem sorte.

A sorte era tua

De ter esse zero à esquerda

Sempre com nova queda

Largando moeda

Pra te ver no cinema

A janela era pequena

De tempo e visão

A gente num esquema

Já tocava o coração

Pra quem seguia o lema

Álcool, rap e pegação

Você burlou meu sistema

Virou a única opção

Agora anos se passaram

E já não somos conhecidos

Passaram e se acabaram

Meus tempos destemidos

Contudo, contundido

Esperanças afogadas

Respiro num mar de derrota

Um idiota de anedota

Sem caminho, sem rota.

O problema com os velhos

Não culpe os velhos
Eles só esqueceram
Que o mundo vai além
Desse utilitarismo proposital
De ordem e progresso
O positivo é letal
Pros que podem, avanço
Pros que morrem, regresso
Os velhos se esqueceram
Que o mundo se sente,
Antes de se ter.

Branco

A minha vida é uma gritaria de acontecimentos
Mas é o teu silêncio que me ocupa
É um monte de fonemas,
Palavras sem ordens exatas
E a tua reticiencia me enlouquece

Você é a pausa numa f(r)ase incompleta.

Eufemismo

O sentimento tem maior dimensão
Ou só ria ou só chore
Sem sorriso, o caixão.

Amar é viver em hipérbole.

Artes

Arte é um meio
De liberar energia vital
Quer esteja o copo cheio
Ou já no final

E não importa que máscara
Colocar nessa energia
É como chácra
Lá noite ou dia

Assume forma
De pintura
poema
Escultura

É quase desabafo
De bons e ruins
Sejam poucas e boas
Muitas sem fins

A arte
É trabalho
E o trabalho
Enobrece.

Armas não combinam com livros

Instinto
É distinto
De distintivo

A farda
Só é fardo
Deixa fadado

Nem fada
Confabula
É fábula.

A bula
Fica bolada
E burlada

A lei
Quer leitura
Ah lei dura

Só dura
Se durante
For de diamante

Só segue a diante
Quem lê antes
Que interessante

Interesse
Em internar
Faz exterminar

O externo
É eterno
Pros ermos

Todo ermo
Tem seu termo
Seu instinto

Sem distintivo
Com instando
Se distingue

Distinguido
E diferente
Pouca gente.

Exigências

Amor pagão
Na fogueira arde
Fui contra o cristão
E deixei de ser covarde
Fogo forte, dor eminente
Logo a sorte foi, de repente
Luto pra poder,
Meu último artifício
Pr’um dia te ver
Farei sacrifício.