Heresia

Se meu destino transita
Entre o que é e o que imita
Distinguo o que me irrita, como me excito
E escolho o que rejeito, o que aceito.
Não vivo todo afoito,
Há o que me anima
Agora, com dezoito
Não posso ver por cima

E quão fácil seria?
Tratar ilusão como heresia?
-R.C.

Falta

Mais me dói
Saber que foi
Do que não ser
Quem diria...
Há 1 ano não poderia
Ter feito tanto estrago
Mas aqui me vejo
Expulsando um desejo
Por falta duma falta.

Desabafo de agora

Não penso em você
Mas se penso,
É com melancolia, não saudade
De quem era companhia sem maldade
E fica então essa vontade
De expressar o que vem do coração
Somente ao chegar a ocasião

Mas como disse,
Não penso em você.

-R.C.

Ao menos vi um pouco além

Tô tentando achar um equilíbrio
Um meio do caminho
Entre morrer sem limites tão cedo
Ou viver feito velhinho
O suficiente pra olhar pra trás
E ter consciência de que se houvesse mais,
Via menos
Consciência de que viver para sempre
Não podemos
Mas posso ao menos ver meus netos
Mas posso ao menos escrever livros

Enfim,
Há muita vida a ser vivida
Pra gastar numa rotina suicida
Mas também a vida é curta demais
Pra viver num constante estado de paz.

Ódio intrínseco

Algo que odeio e o quanto eu quero te odiar
Mas não consigo
Eu queria bater a porta, trancar, jogar a chave longe
Meter móveis na frente
Tudo pra não ver nada que toque tu
Rupi Kaur acertou na mosca:
O ar não tem uso,
A luz não é bem vinda,
A água sujismunda.
Mas não consigo.
Se fosse eu no teu lugar, não me perdoaria.
-R.C.

Deveras noturno

Não vejo aura,
Mas se tenho
Deve ser cor roxa violenta
Eu perdi a minha alma
o meu desempenho
Pena,
A morte chega lenta.

-R.C.

Nosso tempo

Foi incrível
Você, inacreditável,
Pois eu fiz tanto
Pra ser agradável
Que me foi espanto
Quando sem entretanto
Acabou.

-R.C