Ódio intrínseco

Algo que odeio e o quanto eu quero te odiar
Mas não consigo
Eu queria bater a porta, trancar, jogar a chave longe
Meter móveis na frente
Tudo pra não ver nada que toque tu
Rupi Kaur acertou na mosca:
O ar não tem uso,
A luz não é bem vinda,
A água sujismunda.
Mas não consigo.
Se fosse eu no teu lugar, não me perdoaria.
-R.C.

Deveras noturno

Não vejo aura,
Mas se tenho
Deve ser cor roxa violenta
Eu perdi a minha alma
o meu desempenho
Pena,
A morte chega lenta.

-R.C.

Nosso tempo

Foi incrível
Você, inacreditável,
Pois eu fiz tanto
Pra ser agradável
Que me foi espanto
Quando sem entretanto
Acabou.

-R.C

Minha água

Nunca foi bom chorar,
Mas de uns tempos pra cá
Acho que as lágrimas ficaram ácidas.
É como sentir fisicamente a podridão da minha alma.

-R.C.

Travesseiro

Os nossos filhos já tinham nome
Nenhum sonho passava fome
Como um ciclo não se consome
O sono agora some
Não creio que foi tão momentâneo
O futuro era certeiro e espontâneo
O presente tão costumeiro tão rotineiro
E sem mais nem nada, foi-se ligeiro
Foi o que eu fiz? Mas o que fiz?
Foi falta de fazer? Eu tinha como saber?
Há jeito de consertar? Você sabe que eu quis
Eu queria um destino, você tão indecisa
Tão sem sentido e não precisa
E eu já pensando em Ezequiel e Maria Luiza

Abraços fortes e longos

Olho fotos, formas
Foi há pouco
que fui abandonado
Poucos sabem
Quão pouco soube
Eu sobre ficar só.
Por isso,
Fui pra mais,
Mesmo não sabendo
Quais, intenções entendia
Como tíveis!
Trisemente,
Menos tempo ou mais
O sentimento não extendeu
Entende agora
O porquê teu enamorado
Espera traição?
Só espero trazer
Esperança nessa tentativa.
Só penso também
Quando se esvai
Como todas se esvaíram?

Começos bons

O ano era 2016

Eu atravessava a rua

Pra pegar o 513L-10

Quase sempre atrasado

Eu e o transporte

Quase nunca rejeitado

Mesmo quase sem sorte.

A sorte era tua

De ter esse zero à esquerda

Sempre com nova queda

Largando moeda

Pra te ver no cinema

A janela era pequena

De tempo e visão

A gente num esquema

Já tocava o coração

Pra quem seguia o lema

Álcool, rap e pegação

Você burlou meu sistema

Virou a única opção

Agora anos se passaram

E já não somos conhecidos

Passaram e se acabaram

Meus tempos destemidos

Contudo, contundido

Esperanças afogadas

Respiro num mar de derrota

Um idiota de anedota

Sem caminho, sem rota.