Uma gota de grafite num iceberg de papel

Me parece que o tempo, cada vez mais, mais tira certezas do que as confirma.

Eu, que sempre cultivei amizades ao invés de coleguismos- me rendendo uma vida por vezes solitária-, julgava estas primeiras dignas pela profundidade de conversas e idéias, como se colegas não fossem dar a mim aquilo que busco: inspiração e conforto.

Errei. Errei feio.

O escoamento dos minutos tem me mostrado que conexões rasas dão às vezes conversas frutíferas, e também vejo que amizades profundas podem dar muita asneira no papo. Nada contra isso, claro. Mas me surpreende ver rios, possíveis de acabar no oceano (ou um mar, sem problemas) desaguem em lagos ou talvez sequem, enquanto uma poça pode terminar numa geleira.

É possível sentar-se na mesa de um bar e, por um comentário descuidado, não pensado e certeiro, começar uma troca de idéias muito (mesmo) grande e profunda. É possível nunca mais falar com a pessoa após, mas as palavras ficam.

Na falta de rios, poças e lagos na madrugada, me reporto ao papel, chuviscando estes humildes pensamentos. Uma gota de grafite num iceberg de papel.

-R.C.

Princípio ativo da atração

Acho que é comecinho de paixão isso que sinto.

Um tipo de esperança… mas não se sabe o que, porque se espera. Só sei que é um acordar bem sem muito saber do destino mas ter rota traçada para os braços de alguém.

Ter vontade de ver mesmo só tendo visto duas vezes, beijado uma e, apesar desse freios, conversado milhares. De que vale contato físico sem intelectual? E contato social sem vontade? A distância promove o proibido.

Talvez pela juventude ou pela ânsia por liberdade, sempre fui correndo atrás do proibido- mas nunca foram pessoas, sim atos. Essa contra-norma me atrai tanto…

Contra-normas sociais pela atitude, contra-normas mesmo cheio destas.

Façamos assim: não se pode mentir olhares, independente de qual encontro se encontra. Os seus (tão lindos e contemplativos, metalinguagem com os meus, quem sabe) me pareceram apaixonados sem saber nem poder, escondendo-se pela dona ser tal Contra-norma.

Minha norma era não mais se apaixonar mas, de pouco a pouco, é isso que acho que sinto.

Terror urbano

Após o enorme sucesso dos super-heróis a vigilância tomou conta das ruas das cidades. Acabou-se com privado, vive-se na era das câmeras.

Passando pelas casas, todas tem o olho mágico digital, tornando segura a entrada e saída do lar, prevenindo assaltos e vandalismos.

Claro, também revela acontecimentos nunca antes vistos, como o casal se agarrando ao lado do portão, inofensivo, anteriormente infalseável se aconteceu ou não. Revela o escritor conversando sozinho na rua escura.

De carro, cá no centro, encontram-se os seguranças eletrônicos. Impedem invasões, assaltos a queima roupa, roubo de carros e de vendas.

Também ajuda a esconder a droga quando a polícia vai passar, caso entre para fazer revista. Ajuda a tapar a boca da criança sequestradas que tá no porão.

No topo de cada prédio tem um observador oculto, que ajuda em todos os eventos acima.

Porém, ela não só observa. Ela também faz circular.

Circula opressão pela vigilância. Circula o medo de ser pego fazendo nada demais. Circula o medo de ser mal entendido em um ato e ir a cana por isso. Circula o medo de ser o próximo alvo da violência, e isso lhe faz colocar mais uma.

E outra do lado oposto.

Mais uma dentro de casa, a empregada pode estar roubando.

A criança pode ser drogada, coloca ali pra ver o que ela faz.

O cônjuge pode estar traindo, no quarto também.

Hackeia a do celular, nunca se sabe pra onde está a essas horas… fala de trabalho mas pode estar na farra.

Ponha uma em mim também, será que mexem comigo de noite?

Uma na bolsa, talvez tenham me roubado e nunca iria perceber, mesmo olhando por todas as outras.

Ponha uma nas cabeças, vamos descobrir quem pensa coisa errada e punir.

Parece que agora todo mundo é uma câmera, e nem tem mais como se esconder.

Amor em SP- As crônicas de um fotógrafo

Fotógrafo- Victor Dragonetti

Solitário é o sanfonista que, com muita boa vontade, solta notas a um casal. Eles, sem dó ou rétenção de suas vontades, se beijam só esperando.

Solitário é o homem, que ama a garota, mas espera o ônibus que a leva longe, onde sua menina geralmente está, deixando-o sem seu espírito.
Solitária é a garota, que não tem a coragem de contar a ele a verdade, e acabar com algo gostoso, mas temporário, pois espera o sentimento certo, não encontrado nele. Sente que perde tempo, assim como vai perder o ônibus na sua frente e nunca esquece isso.
Solitária é a outra garota, observando o casal beijando, tentando desviar o olhar e esquecer que ele pertence a outra. Possivelmente, ela está enganada, mas o olhar dele quase elimina a possibilidade: o amor nunca deixou o coração dela e sozinha sempre esteve desde que ele partiu, para estar com outra.
O mais solitário é o fotógrafo, que, apesar de não sentir nenhum dos sentimentos citados, quer sentí-los mais que tudo, mas a única coisa que pode fazer no momento é pegar sua câmera e recordar esse momento de complexidade sentimental paulista.
Porém, a maior dor é a do poeta, prosando em cima desse momento pois, para isso, ele sentiu na própria pele a solidão de observar um momento, a de ver um amor se distanciar, de não estar com um amor, de perder um amor e de desejá-lo intensamente.

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Mais bela adormecida

Nasce agora mais uma tragédia.

Nem grega ou romana, mas clássica, de costume vigente a tempos. Dramática? Nem tanto. Este fora feito antes.

“Ridícula! Para escrever esse romance foi fácil, mas renega seu final feliz?”

Feliz para quem? Sejamos realistas, viver arcando com as consequências de romantismos mal escritos é cruel. Viveu, até agora, um conflito interno pesadíssimo: ir por sua essência -e mostrar que morrer por amor seria o feito dela, mesmo com toda sua vida dedicada a esse drama- ou ceder às aparências?

O Príncipe não é principal.

Mesmo participando do conto, só se interessam pelo futuro da princesa. E esta é somente princesa, pois nunca houve uma união verdadeira, um laço oficial garantindo o final feliz; logo logo, deve voltar a ser uma gata borralheira, escrava do tempo esgotado e mal aproveitado.

Agora o sapatinho já não serve mais, e com esse tempo passado, o Príncipe não a achará.

Apagar as linhas desta crônica já não é plausível.

Terminar sua vida com um sorriso no rosto é uma tarefa impossível.

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Arrogância e ignorância

Muito mais fácil ser arrogante quando há dedicação. Pode parecer óbvio, mas acostuma-se com a ignorância quando sua cabeça está parada, e é muito mais complexo aceitar a realidade quando existe movimento.

Cuidado… quem estuda vê o problema mais claramente, e mais intensamente procura solução. Infelizmente, não é nem um pouco fácil achá-la. nesses momentos, as coisas mostrarão uma impossível solução. Mostrará que o mundo escrito, teórico é extremamente mais belo que o real. A questão é buscar o equilíbrio. Essa é a jornada de qualquer intelectual dedicado. Encontrar entre sua teoria e o mundo real um meio termo possível de ser aplicado.

 

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Repetir

A modernidade é uniforme. Pessoas são iguais, seguindo modelos pré-definidos, como quem dá cntrl-c cntrl-v em um trabalho de escola. A originalidade está em seu leito mais profundo na atualidade, moribunda por gente diferente, gente pensante.

Claro, é improvável que, pela originalidade, duas pessoas sejam iguais, mas, e parecidas? Pode ser até plausível. Mas, o cerne do problema é esse: acima de tudo. A modernidade ridiculamente copiada é burra. Um burro que vem da ignorância? Não. Um burro preguiçoso. Um burro sem o mínimo esforço em ir contra a corrente, indo junto de todos.

Há quem diga que isso é algo interessante, desde que a corrente leve ao bem. Ora, isso é discutível, pois, deve-se confiar nos modismos? O bem não intencionado é melhor que um mal intencionado? Colocando a consciência como virtude maior, o maior pecado seria a ignorância. E essa é com certeza a virtude que melhor levará a humanidade para o caminho justo, trazendo um futuro próspero e inteligente.