Uma pena

Se não bater as asas, o pássaro cai.

Se bater fraco, ele se mantém.

Se bater forte, ele vai subir.

O pássaro, em momento nenhum, sai do nível que quer. Isso faz parte da liberdade do pássaro; ele sempre sabe quão alto ele quer estar, qual caminho ele deve seguir. Quase nunca você vai ver pássaros se batendo no céu, afinal, as nuvens não ocupam espaço, logo, não há porque brigar por este.

Mesmo assim, pássaros não voam todos no mesmo nível. Uns voam mais baixo, uns mais alto- outros, nem voam- e são felizes assim.

Eu queria a liberdade dos pássaros.

A tua imagem

Você é uma daquelas pessoas que eu sempre olhei de longe, ficava pensando como a gente daria certo. Daquelas de olhar foto e ver que a cor dos nossos olhos se balanceia e que seríamos fotogênicos.

Na verdade, quando via seu feed, percebia como eu podia ser bom pra você; tanto ali, no social, quanto no pessoal. Temos os mesmos interesses mas não temos nada em comum.

Eu sempre vi você e pensei como eu seria um bom namorado, melhor do que qualquer um seu até agora. Eu ia dormir na sua casa e te levar café na cama. Mesmo que todos fizessem isso, o meu é diferente. Eu desenho um coração, suas iniciais, um passarinho defeituoso na crema no expresso. Eu faço expresso. Eu pegaria textos e decoraria pra você.

Eu sempre achei que daríamos certo, mas nunca acertei se dá pra eu ser feliz.

Hospita-lar

Te quero ao meu lado porque tu tiras uma dor enorme do meu peito. É como um soro injetado na minha corrente sanguínea, removendo o mal estar.

Minha dúvida é se és morfina ou remédio. Tiras neutralizando ou atacando a causa? És tu, bem-amada, um paliativo ou cura?

Ainda não descobri, mas quero-te desde o acordar ao adormecer. Em ambos casos, me fazes bem.

Uma gota de grafite num iceberg de papel

Me parece que o tempo, cada vez mais, mais tira certezas do que as confirma.

Eu, que sempre cultivei amizades ao invés de coleguismos- me rendendo uma vida por vezes solitária-, julgava estas primeiras dignas pela profundidade de conversas e idéias, como se colegas não fossem dar a mim aquilo que busco: inspiração e conforto.

Errei. Errei feio.

O escoamento dos minutos tem me mostrado que conexões rasas dão às vezes conversas frutíferas, e também vejo que amizades profundas podem dar muita asneira no papo. Nada contra isso, claro. Mas me surpreende ver rios, possíveis de acabar no oceano (ou um mar, sem problemas) desaguem em lagos ou talvez sequem, enquanto uma poça pode terminar numa geleira.

É possível sentar-se na mesa de um bar e, por um comentário descuidado, não pensado e certeiro, começar uma troca de idéias muito (mesmo) grande e profunda. É possível nunca mais falar com a pessoa após, mas as palavras ficam.

Na falta de rios, poças e lagos na madrugada, me reporto ao papel, chuviscando estes humildes pensamentos. Uma gota de grafite num iceberg de papel.

-R.C.

Princípio ativo da atração

Acho que é comecinho de paixão isso que sinto.

Um tipo de esperança… mas não se sabe o que, porque se espera. Só sei que é um acordar bem sem muito saber do destino mas ter rota traçada para os braços de alguém.

Ter vontade de ver mesmo só tendo visto duas vezes, beijado uma e, apesar desse freios, conversado milhares. De que vale contato físico sem intelectual? E contato social sem vontade? A distância promove o proibido.

Talvez pela juventude ou pela ânsia por liberdade, sempre fui correndo atrás do proibido- mas nunca foram pessoas, sim atos. Essa contra-norma me atrai tanto…

Contra-normas sociais pela atitude, contra-normas mesmo cheio destas.

Façamos assim: não se pode mentir olhares, independente de qual encontro se encontra. Os seus (tão lindos e contemplativos, metalinguagem com os meus, quem sabe) me pareceram apaixonados sem saber nem poder, escondendo-se pela dona ser tal Contra-norma.

Minha norma era não mais se apaixonar mas, de pouco a pouco, é isso que acho que sinto.

Terror urbano

Após o enorme sucesso dos super-heróis a vigilância tomou conta das ruas das cidades. Acabou-se com privado, vive-se na era das câmeras.

Passando pelas casas, todas tem o olho mágico digital, tornando segura a entrada e saída do lar, prevenindo assaltos e vandalismos.

Claro, também revela acontecimentos nunca antes vistos, como o casal se agarrando ao lado do portão, inofensivo, anteriormente infalseável se aconteceu ou não. Revela o escritor conversando sozinho na rua escura.

De carro, cá no centro, encontram-se os seguranças eletrônicos. Impedem invasões, assaltos a queima roupa, roubo de carros e de vendas.

Também ajuda a esconder a droga quando a polícia vai passar, caso entre para fazer revista. Ajuda a tapar a boca da criança sequestradas que tá no porão.

No topo de cada prédio tem um observador oculto, que ajuda em todos os eventos acima.

Porém, ela não só observa. Ela também faz circular.

Circula opressão pela vigilância. Circula o medo de ser pego fazendo nada demais. Circula o medo de ser mal entendido em um ato e ir a cana por isso. Circula o medo de ser o próximo alvo da violência, e isso lhe faz colocar mais uma.

E outra do lado oposto.

Mais uma dentro de casa, a empregada pode estar roubando.

A criança pode ser drogada, coloca ali pra ver o que ela faz.

O cônjuge pode estar traindo, no quarto também.

Hackeia a do celular, nunca se sabe pra onde está a essas horas… fala de trabalho mas pode estar na farra.

Ponha uma em mim também, será que mexem comigo de noite?

Uma na bolsa, talvez tenham me roubado e nunca iria perceber, mesmo olhando por todas as outras.

Ponha uma nas cabeças, vamos descobrir quem pensa coisa errada e punir.

Parece que agora todo mundo é uma câmera, e nem tem mais como se esconder.

Amor em SP- As crônicas de um fotógrafo

Fotógrafo- Victor Dragonetti

Solitário é o sanfonista que, com muita boa vontade, solta notas a um casal. Eles, sem dó ou rétenção de suas vontades, se beijam só esperando.

Solitário é o homem, que ama a garota, mas espera o ônibus que a leva longe, onde sua menina geralmente está, deixando-o sem seu espírito.
Solitária é a garota, que não tem a coragem de contar a ele a verdade, e acabar com algo gostoso, mas temporário, pois espera o sentimento certo, não encontrado nele. Sente que perde tempo, assim como vai perder o ônibus na sua frente e nunca esquece isso.
Solitária é a outra garota, observando o casal beijando, tentando desviar o olhar e esquecer que ele pertence a outra. Possivelmente, ela está enganada, mas o olhar dele quase elimina a possibilidade: o amor nunca deixou o coração dela e sozinha sempre esteve desde que ele partiu, para estar com outra.
O mais solitário é o fotógrafo, que, apesar de não sentir nenhum dos sentimentos citados, quer sentí-los mais que tudo, mas a única coisa que pode fazer no momento é pegar sua câmera e recordar esse momento de complexidade sentimental paulista.
Porém, a maior dor é a do poeta, prosando em cima desse momento pois, para isso, ele sentiu na própria pele a solidão de observar um momento, a de ver um amor se distanciar, de não estar com um amor, de perder um amor e de desejá-lo intensamente.

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