Boas vivências

Boas vivências

Toma outra dose, mandando tudo para dentro de si. Desce queimando, claro, mas o incômodo é outro. A sensação ali é extremamente familiar, quase monótona, pois é a experiência de sempre, independente do lugar onde está: achar o pequeno bar da região, ouvir a conversa dos bêbados locais e tornar-se um dos ébrios.

Eles discutem as novidades alto o suficiente para ele não ter de olhar disfarçado ou sequer fazer esforço. “Cê viu esses sumiço?” “Vi sim, mas era só estrangeiro, então menos mal” “Que será que acontece?!” “Num sei… já faiz muito tempo que acontece esse tipo de coisa” “Meu patrão, desce mais uma pra nóis!”

“Cidade praiana e pequena, não há muito o que se preocupar” pensa Aureliano. “Os viajantes devem encher o saco daqui e vazar.”

O bar é extremamente pequeno. Quatro mesas de plástico Skol, um balcão médio, com a capacidade para abrigar (talvez) 8 pessoas. A vista faz valer a pena, de frente para o pier. Pessoas passam na frente do estabelecimento e ignoram a presença deste, em parte pelo desconforto com tal nível do lugar, em parte pela estonteante beleza das águas.

Olha um pouco além e vê dois barcos navegando próximos. Não entende nada de navegação, mas aquilo é próximo demais para o porte dos veículos marinhos. Ele não consegue notar o fio vermelho descendo de um dos barcos ou que há conversa entre os capitães. Segue a linha provável do caminho com os olhos e resulta em um passeio de barco de uma hora e meia.

Não há detalhes do caminho (e de nada adiantaria, afinal, não conhece os mares dali), mas somente os horários: 13h, 15h, 17h e 19h. Olha seu relógio de bolso, e nele consta 16 horas e 39 minutos. Decide pegar o passeio das 17, mesmo levemente alcoolizado, nada mal seria um pouco de mar. Quando vai colocar o relógio em seu lugar, se pega olhando a ele.

Prateado nas bordas e aberto no meio, de tal forma a tornar visível toda a estrutura interna do dispositivo (aparentemente), protegida por uma camada de vidro. Guarda-o por diversos motivos. Era de seu avô, veterano de guerra, que apesar de nunca ter saído de casa com uma arma de fogo sequer, não ia nem à cozinha sem o tal objeto. Com um girar específico no marcador de tempo (como um cronômetro antigo), o relógio liberava clorofórmio em gás. Por isso ele era mais fundo que o necessário e extremamente pesado. Não poderia deixar acontecer algum acidente e o dono do relógio de bolso morrer.

Além disso, a tecnologia é o asco de Aureliano, e ninguém ousa contrariar seu nojo. Mas o questionamento de todos (incluindo ele próprio) sempre caiu no fato de ele não estar onde está. Ele está fisicamente no bar, mas ao invés de prestar atenção na própria bebida, presta na conversa atrás, e não em seu petisco, no lindo mar ou o próprio céu. Normalmente, culpa-se os tais smartphones por remover o humano de sua esfera, como explicava-se a condição do garoto? Não se explicava, pois com 20 anos, indo para os 4 cantos do mundo (com vida simples pras possibilidades tidas) ele ainda não vivia. Portanto, sem celular ou tablet para olhar as horas, recorria ao clássico relógio de bolso.

Leva consigo, além do relógio, uma faca, a carteira e as chaves da motocicleta. Tudo embalado em sacos impermeáveis- organização sempre será a maior atenção deste.

Olha para o dono do bar e pergunta a conta. Ouve o valor e não se questiona se ele é ou não absurdo para algumas doses de vodka barata daquele jeito; não por confiar na natureza do vendedor, mas por não lhe fazer falta 20 reais, ao passo que com eles, o dono poderia colocar a droga de uma mesa a mais.

Atravessa a rua cheia de areia, não permitindo-o checar se ela tem ou não asfaltamento. A moto ficou estacionada ao lado do bar, e pela pseudo-gorjeta dada, o dono do bar não deixaria ela ser roubada. Ao menos é assim que Aureliano pensa, e certo está. Para na calçada do meio da rua (usado para dividir vagas de carro de vias) e se apóia em um poste. Sente uma tontura forte batendo, e decide deixar o passeio para as 19 horas, afinal, seria o último do dia, possivelmente mais cheio de gente da sua idade e interessante.

Vai até o suposto porto do navio e pergunta para a mulher se poderia comprar lugar para o das 19. Ela o mede, de cima a baixo procurando traços de policial, mas Aureliano é relativamente magro, de chinelos, regata e olhar perdido de quem já não tem fé. Ela permite a compra, e ele supõe estar sendo observado para merecimento de ir no passeio. Coitado.

Compra o seu ingresso e é advertido a estar 19h naquele ponto, pois só então entrariam no barco, e 10 minutos depois iriam. A segunda suposição é de que a mulher, na verdade, estava flertando com ele. Coitado. Morena dos olhos castanhos, cabelo longo e olhar de desprezo, ele logo refutou sua idéia. Despede-se e promete chegar no horário, não perderia o passeio por nada.

Encaminha-se para a moto e olha novamente o horário. Já que seu hotel é na rua de cima, teria duas horas para melhorar sua cabeça e estar pronto para o passeio. Na verdade, o fazia mais pelo esforço de viver a vida de alguém que não ele- o último desejo de seus pais fora direcionado a ele viver a vida do melhor jeito, e a herança o permitiria fazê-lo.

Quando tira os olhos do relógio, vê uma moto vindo em sua direção, e diminui conforme chega mais próximo dele. O passageiro, sem capacete e munido de uma peixeira, coloca-a na barriga do ébrio e o manda passar o celular. Num meio reflexo dado por sua longa experiência em artes marciais, ele dá um leve tapa na faca, fazendo-a sair da linha de seu corpo, e com o cotovelo a derruba. Dá um soco no passageiro e empurra o motorista da moto, o derrubando e fazendo o veículo cair para o lado dos meliantes. Desesperados, abandonam o local rapidamente, sem sequer olhar para o rosto da possível vítima. Mesmo com reflexo reduzido, Aureliano ainda era extremamente habilidoso.

Com sua moto em mãos, faz uma curva para ir ao hotel, passando pela avenida da praia. Sempre olhando para frente e procurando a rua para entrar, perde toda a beleza do mar meio verde e meio azul, cheio de pequenas quebras brancas espumosas, fazendo um deliberado convite para dar um mergulho. Mas ele entra na 3a rua. Sobe ao quarto rapidamente e apaga no encostar da cabeça no travesseiro.


Abre os olhos numa calma absurda. O sol leve ainda bate, tornando o quarto morno sonolência, e não quente insônia. Pega o relógio do avô para ver o horário e se desespera: são 19h. Enfia os chinelos no pé e dirige com velocidade até o cais, voando até o lugar de encontro. Chega em 3 minutos, com o peito explodindo e visão turva do desespero.

Recebe olhares tortos da mulher e do capitão. Dá o ingresso à mulher meio trêmulo, característica advinda da explosão até o lugar. Ela recebe meio impaciente, mas ele não nota nem isso ou o leve corte na mão dela, não tão profundo, mas notável, muito menos a leve mancha vermelha no convés no qual pisaria em poucos segundos.

O barco é bem cuidado mas velho. Aureliano olha para a estibordo, à sua direita, e vê a figura contraditória  (em sua mente) de um pirata. Questiona o sentido de um símbolo da ilegalidade nas navegações para um serviço aprovado pelo governo.

Se o governo aprova ou não… é complexo. Talvez apoiasse os passeios, afinal, movimentavam a economia regional, davam um ar mais interessante à cidade. Mas a verdade é que não apoiaria caso soubesse de tudo. No fim, faz completo sentido o pirata no mastro.

Olha para os lugares disponíveis e escolhe o mais próximo da bóia; não é medroso, mas prevenido. O aviso de segurança é dado e, como nos aviões, ignorado por todos a bordo. As caipirinhas chamam a atenção de quase todos.

São aproximadamente 20 pessoas ali. Ouvindo as conversas, nota o padrão social dali: viajantes ricos e jovens. Sua mãe não ficaria mais orgulhosa, pois apesar de não está se misturando, estar ali é esforço suficiente.

A caipirinha de limão é tudo o que importa para ele. Coloca cada vez mais para dentro, sem notar a distância tomada da costa, o mar agitado e o céu preto. Todos já se organizam para o ataque em uns 30 minutos.

Aureliano começa a chorar. Não entende o motivo, não se pergunta também, acostumado a levar o mundo como ele é, simples ou complexo. Numa das muitas doses, que fizeram sua imagem para a tripulação bem frágil, ele tem um delírio.

– Em seu pseudo-sonho, Aureliano se vê numa das muitas das discussões com seu pai.Eu não quero pai. Não sirvo pra Medicina.

– Tudo bem. Direito então.

– Também não.

– Engenharia? Arquitetura? Contabilidade? Letras? Moda?

– Não pai, não! Para de enfiar faculdade pra minha goela.

– Não vou Aureliano. Mas você tem que achar algo para fazer. Você não pode passar o resto dos seus dias olhando para o teto de casa.

– Mas pai…

– Aureliano, já tem muito tempo que eu devia ter te falado isso. Mas filho, é o seguinte. O mundo funciona como uma noite gelada. Mais do que você conhece, de um jeito só possível pra cima do Canadá. Naquelas noites, temos poucas possibilidades.

“É mandatório acender a lareira. O fogo revitaliza tudo, e ai começa a vida de fato.

“Você vai olhar pela janela e ver neve. Branca e atraente, com os raios de luz da lua iluminando a trilha. As árvores resistirão aquela temperatura e melhor paisagem não haverá. A escolha será óbvia: ir até lá.

“Mas a cada passo que você der, sentirá seu suor congelando. O conforto do fogo pela falta de calor acaba, e você é largado a própria sorte. O questionamento é: voltar ao fogo ou sair ao frio?

“O problema não é um ou o outro, mas ficar no meio. Você não está no conforto ou na beleza, mas no terror da dúvida. O problema, Aureliano, é que você não sequer duvida. Em suma, você não vive. E está na hora de começar a viver.”

Não sabe quanto tempo passou naquela brisa, mas ao sair dela se determina a cumprir o conselho do pai. Só estar ali não bastava, quer viver. E que oportunidade de demonstrar essa ânsia, não?

Pois nesse momento começam os gritos no deck de cima. Aureliano olha a frente uma porta e se joga contra ela, afinal, não havia ninguém olhando ou naquele lugar. Sua respiração acelera, o peito bate mais forte: é a adrenalina.

No andar de cima, os marinheiros revelam sua verdadeira cara. Na verdade, forjam os passeios como forma de atrai vítimas para morte e roubo, como se fosse um conglomerado de psicopatas. E faziam agora o seu prazer, deixando sangue escorrer pelas bordas do navio (como o fio vermelho no casco), assustando Aureliano.

A tripulação é de cinco. Um veleja, os outros matam. Os gritos de cima pararam e a chuva ameaça, sem molhar, mas trovejando. Ele espera a passagem dos marinheiros e corre para o capitão, que, ao invés de gritar, tenta eliminá-lo sozinho.

Mas ele não conta com a faca de Aureliano. De primeira, o capitão morre, e o homem deixa o timão travado, para evitar maiores problemas. Escurece devagar e o clorofórmio passa a ser valioso.

O relógio é furado e atacado de cima para baixo, e quando segura, um psico morre inalando. Uma mulher inocente se joga ao mar, tentando fugir inutilmente, pois acaba morrendo, e os outros três vão em cima dele.

Assim, todo molhado de sangue que escorria, com duas mortes nas costas, vai Aureliano defender sua vida recém conquistada.

Um por um, com facadas, socos e empurrões para fora da embarcação, Aureliano mata todos. Não sorri. Não chora. Apenas olha ao alto e ouve o trovão final antes de cair a chuva.

Ela cai com força. Uma das maiores da época. O navio transborda, mas tudo o que sai dele não é água, mas sim correntes de sangue. Aureliano olha para cima, ciente de seus atos, mas feliz por estar sentindo o banho de alma que está sendo aquela chuva

Insônia

Escrevo pelas paredes os versos cuja recitação foi falha a você. Eles me torturam. Escravizam minha mente, forçando-me a não pensar em outra pessoa, situação. Não há espaço nem para sonhos, estudos ou sequer leituras. Tudo é pesadelo.

Qual a tinta dessa (anti)poesia? Não há definição deste vermelho. Pode ser meu sangue ou o teu, nunca saberemos. Os cortes feitos em um são sentidos no outro. Que lindo é o amor… partilha do pão e vinho; no caso do corpo e do sangue.

Agora entendo a não-diferenciação da tinta. Ela é uma só, removida de um só local, extraída em uma só dor. Seria a briga, então, uma auto-mutilação voluntária? O “tempo” uma dupla-personalidade?

Te culpo sim pela loucura trazida pela privação da necessidade humana mais irracional- tu tirastes de mim o amor e como consequência, se foi meu sono. Junto do sono, esvai-se a vida, deixando-me sem vitalidade alguma. Já não conheço visão se não a turva; sensação visual que não a ardente; gosto de não o salgado de minhas lágrimas e talvez o de sangue arrancado dos lábios perante o desespero.

Sou obrigado por este sentimento a fechar-me em mim. Sou todo escuro. Sou todo buraco. Gauche de mim mesmo, sinto peso nenhum comigo se não o da sua perda, e ele é suficiente para me jogar no chão.

Não é suficiente para desligar minha cabeça.

Não é suficiente para cansar.

É o que basta para me enlouquecer.

-R.C.

Natureza cúmplice- As Crônicas de um Fotógrafo 


Andando pela cidade, não encontro nada de muito interessante. Criei esse hobbie na adolescência: andar pelos lugares caçando histórias, como se a rua fosse a extensão da janela usada pela minha avó para saber da vida alheia. Só observava tudo, em silêncio cúmplice.
Já havia um contrato entre os moradores e eu. Ao início, achavam estranho um menino andando quieto, olhando tudo. Acanhavam-sem com medo do julgamento social da rua. Foram notando meu jeito quieto… paulatinamente, eu já não fazia parte do corpo social daquela comunidade. Era um acessório, um eterno expectador.  Os novos entravam no bairro, achavam ruim, má acabavam se acostumando.

Lembro-me da primeira fofoca escondida por mim: uma mãe fugira de casa. Deixara a filha a mercê do mundo durante 2 dias, mas ninguém notara. A única pessoa consciente daquilo era eu. Podia acabar ajudando a garota? Chamando a polícia? Claro. Mas nunca fiz. Nunca me pareceu importante.

O importante foi quando o bairro cresceu e virou comunidade. Certa vez, subindo as ruas, dei de cara com a casa de um moço alto, forte. Vi ele pegando a peixeira, apontando pra moça. Se entendi bem, ela falou algo como “Não precisa! Eu pago!”, e logo em seguida já vi a peixeira em cor vinho.  

O homem chegou em mim, por ver que eu assistira a tudo, e me puxou para dentro da casa. “Já tô sabendo dessa sua fita de autista, mas já te digo que se isso vazar, quem morre é você moleque.” Sai dali em desespero, mas quieto. Desta vez, eu realmente tinha virado um cúmplice. Meu crime era ser eu mesmo.

No fim, a verdade foi sempre essa. Mesmo agora, nesse parque, vivo uma vida de outros. Uma história dependente diretamente aos problemas alheios. Saí de casa com uma câmera, apesar de nunca agir por si só, impossibilitando o uso desta.

De repente aparece uma garotinha. Deve ter uns 8 anos. Parece moradora do bairro, apesar de nunca ter visto ela, pois está sem pais e muito feliz para o lugar onde está. Ela senta no banco esperando algo. Suponho ser algum responsável.

Ouço uma corredeira atrás de mim. Um menino, da mesma idade dela anda com as mãos atrás do corpo. Sorri grande, como travesso. O que será que guarda?

Conforme anda, vem o buquê de flores enorme em suas pequenas mãos. Ele olha para a garota, sem falar nada, e ela ri. Ele também, e alto. Nesse momento, levanto a camera rapidamente e bato a foto dessa cena. Ela pega o buquê e dá um beijinho em sua bochecha.

A foto representa muito para mim. Desejo ser exatamente como o menino.

Desejo ser atuante, não cúmplice. Ele demonstrou seu sentimento, seja lá qual for com um gesto lindo e pessoal. Não esperou receber ou quis ver alguém fazê-lo. Queria ter sido a pessoa a ajudar a menina abandonada, não esperar a mãe dela voltar.

Desejo ser inocente, como antes da noite em que vi o assassinato de uma mulher pelas mãos do traficante, removendo toda minha infância junto da vida da mulher. O garoto não teve a malícia de beijar a boca. Pelo contrário, se animou com a bochecha, já completamente vermelha.

Talvez, quem sabe, aquele moleque devia ser eu.

Confinamento- As Crônicas de um Fotógrafo

Confinamento- As Crônicas de um Fotógrafo

O som do sinal interrompe minha fala. Imediatamente, pode ser ouvido o som de  livros sendo fechados sem vontade alguma, quase expulsando o interlocutor de seu espaço; no caso, eu sou ele, me deixando em uma situação extremamente desconfortável. Mesmo assim, não deixo de dar o aviso.
-Não se esqueçam dos resumos para semana que vem… as provas chegam e quero todos fora da escola ano que vem!

Deixo a sala de aula e imediatamente trombo Lili, a professora de matemática.

-Bom dia Rafa, como estamos?

-Muito bem! Agora vou pra casa, última aula. Vai pra onde?

-Acho que para o clube de fotografia. Você deveria tentar um dia.

-Ah, não é minha cara. Curto mais as coisas concretas, entende?

-Estranho, para alguém que cursou história… ela não é nem um pouco concreta.

-Suponho que é compensação, hahaha. Mas valeu o convite.

Gosto de Lili. Após ingressar esse Colégio (cerca de 1 ano e meio atrás) nos aproximamos muito, por não termos o mínimo interesse de participar do grupo mal-falante dos alunos.

Enquanto caminho em direção à garagem, observo o corredor. Colunas baixas, com um pé-direito de mais ou menos 4 metros; sinto muitas vezes que, ao pular, posso bater a cabeça, ou o medo de, do nada, o teto desabar. As paredes são cinza, as portas de madeira extremamente pesada. É fácil perceber a (quase) inexistência de janelas, pois elas se concentram nas salas de aula, e mesmo assim, são repletas de grades de ferro. Após comparações nem tão exageradas, compreendo o ódio dos alunos pela escola. Abro o portão de ferro (o único da escola) e entro na garagem de concreto, e adentro o carro.

Pequeno, com somente 2 lugares e o porta-malas, ele não convida ninguém pretendente de uma família. Oprime essas ideias facilmente, algo nem tão bom, mas o preço valeu. Família é uma idéia que permanece na minha cabeça em todo o percurso a casa. Uma mulher, filhos… mal consigo imaginar como seria, mas vejo uma pessoa: Lili.

Nunca me apaixonei loucamente, mas ela é o mais próximo desse sentimento que tenho. Confio nela, é uma amiga razoavelmente próxima e temos tempo extra-trabalho muito bom juntos. Claro, tenho meu grupo de amigos da faculdade e saímos para botequins e boates, mas o aperto de estar naqueles  lugares abafados e cheios de gente desconhecida não é nem perto de aliviante.

Esse pensamentos já permeiam minha mente a semanas. Já pensei em uma ou duas situações para tratar disso com ela, mas fico incerto e coisas do tipo. Não sinto aquele tesão em ir fazer isso, mas é uma constante, pois nada me deixa dessa maneira.

A buzina arranca na minha orelha. Quais me envolvi em um acidente, e isso move minha cabeça para fora da temática e coloca-a no trânsito. Mesmo num engarrafamento, fico focado oda frente e o de trás, com medo de uma retaliação pelo quase incidente. 30 minutos fico nessa avenida, mas chego no meu apartamento.

20m2. É esse o tamanho da moradia em que vivo. Suficiente para viver sozinho, tudo bem compacto. Sempre economizei muito, apesar de não haver destino para esse dinheiro. Suponho que seja instinto preventor… não compro nada além do necessário. Abro o armário e como um jantar, decido em mente que amanhã falaria com Lili.

Vou na gaveta, pego a câmera fotográfica  guardada para a tal ocasião  (ou só um presente), uma garrafa de Jack Daniels guardada para emergências 3 coloco na minha mochila. Soco umas roupas para esconder ambos; um shorts, uma calça jeans, algumas comidas… e não é possível mais notar a existência de ambos ou da arma branca que guardo.

Coloco a mala no sofá e caminha pra cama. Com roubo de trabalho mesmo, me jogo e durmo profundamente.

O alarme são altíssimo no ouvido, mas estranho o toque. Pego o telefone e vê que estou 30 minutos atrasado. Vou perder a 1a aula. Troco rapidamente de camiseta, passo desodorante e perfume, tomo meu café e saio após escovar os dentes.

Um acidente para a rua e sou obrigado a esperar; agora fica impossível dar a 1a, talvez até a 2a aula.  Ligo para o diretor avisando meu atraso. Após ouvir muitas, desligo e faço meu melhor, chego na escola a tempo de pegar a 3a aula.

Quando esta termina, vou para o intervalo, e sento ao lado de Lili.

-Bom dia  

-Bom… soube que atrasou hoje.

-Sim… infelizmente algo aconteceu e meu despertador não tocou.

-Que pena. Bem, acho que já vou indo para a sala então, tem matéria atrasada e tudo mais no E.

-Espera! Queria te perguntar… o que acha de sair pra jantar um dia desses?

-Jantar?

-Sim, qualquer lugar.

-Rafa, pra que?

-Ah, acho que a gente tem uma química e tal, bons amigos…

-Não.

-Não? Por que?

-Olha, muita coisa. 1o porque é do trabalho. 2o porque não somos tão amigos assim… não tivemos conversas muito profundas nesses ano e meio, né?! 3o porque você é muito morto Rafael.

-Morto?

-É. Você não vive, só está aqui. Você simplesmente se enjaulou na sua vida, nessa escola. Vive uma vida completamente vazia e eu não quero ir junto nessa.  Quero continuar com meus encontros e ambições, não estagnar num apartamento de solteiro, carro de solteiro e vida solitária com meus 25 anos. Desculpa, mas não. Agora, tenho que ir, e o Diretor quer falar contigo.

As palavras dela me atingem como socos. Confinado na minha cabeça, talvez nunca tenha olhado que ela não é bem a mais confiável. que talvez aquela escola seja uma prisão, não uma instituição de ensino. Que esse ambi engr fechado é repugnante para mim. Repentinamente, abandono as esperanças nesse modelo vivido.

O diretor chega perto e eu o mando  ao inferno. Na hora, fica explícita  minha demissão. Pego minha mochila, entro no carro. Lembro de uma estrada distante e por impulso, sigo na direção dela.

Num posto sento para decidir um plano e começo a ouvir um papo de dois homens. Um reclama de sua moto, inútil para a viagem planejada, pois vai com mala. Me meto na conversa fazendo uma proposta de troca; o carrp e pela moto. Pela velocidade e por saber qual carro era, decide aceitar. Após dar e receber as chaves, vou ao banheiro, me troco, ficando de jeans e blusa devido ao vento que rasga. O homem avisa que a moto está ruim, mas dirigível. Não me importo, só quero algo diferente.

Saio do posto em alta velocidade, seguindo em direção às serras mais vazias que consigo imaginar. Paro algumas vezes no percurso, mas nada demais, somente o motor falhando um pouco. Cai a noite e durmo num motel, entrando quando já não tenho energia para andar. Saio de lá 5h da manhã, para seguir estrada, com energia e alimento comprado.

O motor continua falhando e não tenho onde chegar, então, paro no acostamento. Passa pouco da hora do almoço, então, não me preocupo com alguém aparecer e eu sofrer ameaças, apesar de conservar a arma perto, na mochila. Sento na mureta ao meu lado; quando olho para baixo, vem a sensação de vertigem fortíssima da cabeça ao pé, pois abaixo de mim há um rio com forte correnteza, uma morte certa. Mas que importa? O que é a vida se não uma sequência de fatos aleatórios, um resultante do outro, com a constante eminência do final? Nesse momento, deitado neste muro com a garrafa ao meu lado, não estou mais perto da morte do que sentado no chão ou em casa na cama. A diferença mora na vista, pois o céu incrivelmente azul, com nuvens extremamente brancas me animam, e a correnteza faz um som de queda d’Água agradável aos ouvidos.Olho para o lado e vejo ali uma pequena estrada, mais íngrime, porém descendo até a margem. As devidas subsequentes fazem parecer um pequeno desenho, uma seguida da outra, e pego a câmera para registrar essa linda paisagem.

Este é o verdadeiro sentido para a vida, suponho eu. Do que adianta uma vida em locais confinados se a Graça de tudo está na paisagem?

Fim

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Esculpindo

Meus dedos deslizo em suas cachoeiras confusas… o que são? Decifrá-las é um passatempo e admirá-las quase obrigação inata. Permanecem dúvidas bobas em meio a cheiros conhecidos e saudosos, atração paradoxal nos cachos… são eles negros como teus olhos ou claros como a luz de tua alma?

Aí encontramos mais uma contradição. Se os olhos são a entrada da alma, como os seus são tão escuros? Não vê-se a tua leveza na cor, mas no jeito; a íris é suave e amorosa, acolhendo a minha menina carinhosamente, apesar de ela escorregar para o vermelho mais abaixo.

A cor é linda e vital. Mostra muito do que tu és para mim: o sangue corrente no meu corpo tem aquela cor. O sabor é diferente, mas atrai tal como se eu fosse um vampiro, alimentando-me de seus beijos, sendo iluminado pela tua cor, metabolizando teu perfume.

Como é penetrante este; em cada curva, cada pequena pele tem seus rastros. Isto pois não é essência artificial, mas natural do teu corpo.

Ah, como deslizo em cada parte… no peito acolhedor, o braço confiável e cintura feita a medida. Michelangelo tentava imaginar tal perfeição, mas era falho. Seu Davi pode ser modelo masculino, mas tu és o feminino, demonstrado no teu caminhar.  Teus passos são inocentes e soltos. Um rebolado leve pode ser percebido ao analisar de perto… mas fica exaltado quando vê uma dança. Aí perde tanto a imagem de criança, mas isso é ressaltado no amplo controle tido. Manipula para pisar e não sofrê-lo.

O passo é leve como o espírito, e a bondade na personalidade  agravante deste. Caminha até mim devagar, joga teu corpo no meu e deixa viver nossa vida. Ela será longa e bela, cheia de arrependimentos e risadas, acima de tudo por termos almas conectadas e compreendidas por si, assim como os corpos se entendem com facilidade. 


 

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No país das correntes

O Branco da Luz entrava por meus olhos lúcidos. Quem esquecera de fechar as cortinas? Não tive idéia do porquê de eu (possivelmente) teria feito isso. Não me incomodava, dentre muitas das coisas estranhas a minha volta, com a incompreensão do presente. Era preferível vivê-lo. É doce a sensação de acordar e não ter ideia de como parou ali. Simplesmente descer escadas.

Com a mão apoiando, segurei devagar e fui descendo,  saboreando cada passo dado. Ao fim da nem tão longa escadaria, senti cheiro de ovos. Meu peito doeu instantaneamente ao contato com o odor. Ignorei, apesar da intensidade, e sentei mesa. Pulei o café, fui direto ao almoço.

– Alicia querida… tudo bom?- Sentia a apreensão na voz de minha mãe

-Sim mãe… pode fazer um pra mim?

-Claro filha.

Por algum motivo, não conseguia identificar o elemento estranho na situação. A mesa suja de giz (natural, meus pais são professores), a cadeira vazia… era isso. Nem meu irmão não estava sentado, muito menos meu pai. Indaguei isso em voz alta, e fui respondida com um prato de ovos na mesa e uma rápida saída da sala, com o contato visual extremamente evitado pela parte dela.

Nunca tive uma preferência por companhias, todas são dispensáveis e inúteis, inclusive a de minha família. Já a muito eu era tratada como uma excluída, mesmo sem motivos aparentes, e minha rejeição pela sociedade era proporcional a exclusão por ela produzida. A refeição seguiu calma e lenta, terminei-a com apetite saciado.

Fui ao meu quarto para fazer a arrumação. Olhei os pôsteres; tanto trabalho para conseguir cada um deles, mas tão fácil sua perda, um rasgãozinho bastava para eu eliminar algum da parede. Seria meu perfeccionismo uma maneira de me distrair dos problemas sociais? Não lembrava de onde vinham os problemas, então, não havia resposta. Notei em um estrategicamente colocado para dividir meu quarto e do meu irmão- havia um pequeno furo na parede, suficiente para olhar e ouvir o do lado- e vi um borrão, trazendo a necessidade de  tirá-lo dali.

Ao removê-lo, vei meus pais e meu irmão conversando, em tom extremamente baixo, quase contando segredos. Tentei ler os lábios, mas não consegui. Olho um pouco ao lado e vejo mais um pouco de giz no buraco, apesar de não haver contato dos meus pais com aquela fissura. A última coisa que me lembro foi um grito seguido da palavra louca, trazendo um sentimento de desespero e uma longa respiração.

  • ●●

Dessa vez era escuro. Não tive ideia de onde estava. Meu quarto não era, pois eu repousava no chão frio e duro. Também não minha casa, o cheiro era muito estranho para isso e minha casa cheia nojento diferente. Aos poucos, eu voltei aos sentidos, sem a menor idéia do porquê estava ali. Essa memória não vinha, então assumi ser um desmaio. Ouvi uma voz conhecida, parecida com a de um colega de escola.

Foi super amigável comigo, quase inocente mas com um quê aproveitador. Ajudou-me a levantar, mas minha cabeça doía muito, tornando o raciocínio impossível. Passou a mão no meu corpo inteiro, tateia muito além que até um policial iria. Perguntou a mim se eu ainda tinha alguma coisa.

Supus o assunto ser planos, e contei a ele que não. Após isso, sou levada por ele até seu carro, onde ele dirigiu até alguma balada. Entramos lá facilmente.

A entrada é forte em minha memória; grandes quantidades de sacos em mãos de pessoas aleatórias, muita fumaça no ambiente e música abafando todos os outros sons. Vou dançar com o amigo, completamente chapado.

A partir daí, as memórias ficam mais fracas… não consigo lembrar muita coisa. Uma mesa suja, muitos cartões de crédito. Risadas altas. Mas, além de um beijo quente e pesado da mesma pessoa que fala, somente uma frase simples: Ela deve ser doente!

  • ●●

Um esfregão me acordou desta vez. A moça indelicadamente me mandou sair do local, e eu saio tropeçando. Negra, aparentemente velha (pela semi-calvície), extremamente rude comigo; mas segui suas ordens. Não tinha idéia de quando desmaiara, mas olhei acima e notei que o clube não era o mesmo do qual me lembrava.

Olhei algumas ruas, vagando sem destino ou pretensão e identifiquei estar na vizinhança de Chapa, um antigo amigo. Através de perguntas a desconhecidos, subindo e descendo a mesma rua, encontrei o local. Apareci em sua casa, em estado degradante, e pedi só para ser levada para casa.

Chapa perguntou sobre meu rosto, vermelho, e culpei  o maldito esfregão e a faxineira. Senti rosto entupido, suspeitando uma gripe forte, o nariz extremamente fechado para inspirar e expirar. Quando tocou meu braço, Chapa puxou minhas mangas acidentalmente. A dor causada por isso veio de duas direções: a psicológica, de ver linhas retilíneas no pulso as quais seguiam direções que não as da veia, sem razão aparente; e a física pelo atrito da roupa com o braço fazia um leve sangramento, denunciando o quão recente é o incidente.

Na hora, ligou para meus pais, e tudo corria relativamente bem, mas o maior problema foi a fala, desesperada, me tratando como louca.

-Ela não tem a menor ideia do que está acontecendo, dona. Alicia já perdeu a cabeça.

  • ●●

Lembro cenas após isso.

A ambulância me levando mas me sedando por algum motivo, com seguranças me prendendo à cadeira. Olhei para o espelho do teto e vi meus olhos vermelhos sangue, minha face roxa como se eu tivesse sofrido uma asficcia. Mesmo assim, não deixei de flagrar um sorriso enorme e desesperado de quem sente falta de algo.

O médico estranho me visitando dia sim, dia não. Sempre perguntando de meu apetite, mantendo uma distância sem sentido algum. Por que ele fazia isso?

Minha família me abandonando.

Lembro de ser trazida pra cá, numa cadeira de força, meus pais assinando um contrato. Lembro dos homens falarem para mim que eu estava perdida. Lembro de socar a parede de concreto extremamente raivosa por motivos desconhecidos por mim, nesse momento.

Com algemas fortes e sala branca, não sabia o porquê estava aqui. Só comia, olhava, pensava. Aqui, não dava pra socar a parede, ela é muito macia. Não tenho idéia de quanto tempo se passou. Aí o senhor veio e entrou na sala, colocou uma mesa.

-Agora sabe o porquê está nessa clínica, Alicia?

-Não.

-Agora sabe o porquê está nessa clínica, Alicia?

-Não.

-Responda a verdade.

 

Com um sorriso enorme e desesperado, olhos saltados, certos da resposta, falo:

-Todos ouvem vozes na minha cabeça;

O agente de preto pega um saco transparente com algo Branco dentro e joga com força na mesa.

-Não! Você também ouve?!

-Alicia, só faltam vozes na sua cabeça.

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Arquitetura (a)temporal

O tempo tudo desgasta. Sem interferências externas à natureza, qualquer coisa cai.
As colunas sustentadoras, ao início de aparência invencível com seu concreto e cor alva, só necessitam de alguns meses para os primeiros sinais: manchas poluindo seu visual. Dê alguns anos e pedaços caem ao chão, fazendo rachaduras. Não é necessário falar que um tempo passará, e a coluna deixará de cumprir sua função.
O azulejo quebra com a queda do concreto. Mas, será que além do físico, ele já não está destruído? Ora, a pedra fora a primeira coisa a tocá-lo em anos… e não é esta sua função? O chão já não exerce sua função de apoio. Milênios passarão e pés nunca o tocariam. A dança não ocupou-o mais e a música, portanto, não chega nas paredes em ruína (as quais não cumprem suas funções de barrar sons).
Nas paredes só sobram os pregos de ferro já tomados pela ferrugem, quadros desbotados, uma cruz de madeira já devorada pelos insetos, prateleiras arruinadas pelo tempo. A função de acomodar enfeites já não existe e a desfeita com peculiaridades do lugar é vista pelo mundo afora. Ventos são sentidos com intensidade- sejam eles quentes ou gelados. A chuva entra por todos os lados, inclusive por cima, com a falência do teto.
A cobertura já não existe ou faz sentido. Sem colunas firmes, paredes silenciosas e chão acolhedor, o teto não precisa cobrir nada é muito menos ter apoio. A habitabilidade é impossível e o tempo implacável.
Note que, sem mudança, essa tendência é certeira. Acontecerá, goste o mundo ou não pois construções ruem.
Assim são relações. Necessitam de cuidados para serem estáveis em si, sentidas intensamente, firmes nelas mesmas e (o melhor) cuidado por ambos. O tempo estraga.
Mas, sabe como é né?
Contigo, me sinto em casa.

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