Amor além da matéria – sobre “Ela”, Spike Jonze (2013)

Amor além da matéria – sobre “Ela”, Spike Jonze (2013)

Mais que sobre a realidade versus artificialidade- trama bem explorada nas distopias modernas e, mais especificamente, pelo Black Mirror- o filme “Ela” (Spike Jonze, 2013) se trata de como nos relacionamos da mesma maneira em todos os campos da vida. Também é sobre um amor diferente do visto nos livros e poemas; um amor real e introspectivo, provindo de uma jornada de redescoberta de si.

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A fotografia de “Ela” há de se destacar; além da maneira tocante dos personagens de se relacionar, a movimentação, focalização e enquadramento do filme dão a ele outra dimensão.

O filme começa (genialmente) numa cena que viraria cotidiana no longa-metragem: Theodore (o personagem principal muito bem interpretado por Joaquin Phoenix) redigindo uma carta pra lá de tocante. O filme quebra as expectativas mostrando que esta é para alguém não relacionada ao protagonista, mas cliente da empresa na qual trabalha.

O envolvimento de Theo com a inteligência artificial ‘Samantha’ se dá de uma maneira controversa, mas natural (com a voz emblemática de Scarlett Johansson). Sem a possibilidade de materializar-se, pela falta de um corpo, Samantha se faz presente na vida do protagonista mesmo como um “computador”. Firmando-se como uma par-romântico, com sentimentos e pensamentos extremamente humanos se torna querida do espectador, além de uma verdadeira agente na vida de Theo.

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Theo se assemelha muito, na minha visão, à Paulo Leminski, grande poeta brasileiro. Ambos escritores, sensíveis e… com um notável bigode! (Acima, Joaquin Phoenix como Theodore. Abaixo, Paulo Leminski).
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“Acaso é este encontro / entre o tempo e o espaço / mais do que um sonho que eu conto / ou mais um poema que eu faço?” – Paulo Leminski,

 

A relação do protagonista com 3 mulheres principalmente faz a pergunta “a quem se refere o título ‘Ela’ se refere?” pode surgir, mas é só assistindo essa obra-prima do Cinema para chegar a conclusão: seria Samantha, a ex-mulher Catherine ou a melhor amiga Amy?

Fica mais que recomendado o filme “Ela” de Spike Jonze.

 

 

Ponto parêntesis Léo: conteúdos inspiradores e complementos

Antes de escrever essa resenha, dois vídeos me inspiraram a ver “Ela” e com toda certeza influenciaram minha maneira de assistir o filme (e creio que muito para o lado bom), por isso deixo aqui dois vídeos: um do Quadro em Branco, um canal do Youtube sensacional que trata de assuntos culturais-filosóficos-sociológicos de maneira sensacional (sou seguidor fiel do canal) e outro do Gustavo Cruz, um canal que conheci agora, mas com a produção interessantíssima. Fica a dica!

(Este vídeo trata mais da dimensão amorosa nos dias atuais, muito presente na discussão do longa, não se retrata diretamente ao filme em si.)

(Este traça paralelos entre “Ela” e “Lost in Translation”. Trás o background de criação do longa em questão, por isso tão precioso!)

 

A Segunda Pátria-Miguel Sanches Neto

AVISO: Será feita uma nem tão pequena resenha. A partir das bolinhas pretas (tópicos) temos as melhores reflexões do livro, onde no tópico se encontra a estrutura: Parte, ano (Página). Boa leitura!

O livro é dividido em 4 “partes”, as quais, por sua vez, tem capítulos. O tema do livro é nazismo aplicado ao sul do Brasil, porém de uma maneira inusitada: o autor modifica a História, criando uma aproxima

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Capa do livro “A Segunda Pátria”, edição de 2015 (1a edição)

ção de Getúlio Vargas e Adolf Hitler. No total, a trama se passa desde meados de 1930 até (quase) 1945.

Para contar essa história, Miguel apresenta 2 personagens principais, Adolpho (ou Trajano) Ventura e Hertha, mas usa o passado de muitos personagens na trama para narrar um enredo (apesar de fictício) extremamente realista. O autor ainda usa figuras históricas reais (como Benjamin Vargas e Gregório Fortunato) como personagens.

Achei o livro maravilhoso, vale completamente a leitura para se entreter, mas principalmente pela experiência histórica por ele trazida. Sanches é doutor em Teoria Literária (UNICAMP) e fez uma profunda pesquisa para o desenvolvimento desse romance (todas as fontes utilizadas localizam-se no final do livro, no capítulo de ag

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 Capa do livro “Um rio imita o Reno” de Vianna Moog, citado no capítulo de agradecimentos, pois faz diálogo com o livro criticado.

radecimentos), dando uma base profundamente firme para o autor.

De crítica, senti um certo machismo pela parte do autor em uma ou duas partes (algo que para mim é triste, mas pode ser simplesmente pela natureza do livro), uso de certos consensos errôneos na narrativa (o uso da palavra anarquia de maneira errônea chamou minha atenção..) incomodou. É um livro para ser lido (pelo menos) duas vezes, pois a narrativa, com o final do livro, ganha outro significado.

Agora, vamos para os melhores trechos reflexivos, escolhidos por mim. Eles podem ser compreendidos sem a leitura do livro, mas com a leitura, ganham um significado muito maior… enfim, vamos lá.

  •  Neger, 1940 (Página 30)

“Mãos acostumadas às armas dificilmente amam virar páginas”

  • A teoria do lobo, 1941 (Página 202)

“Diante da música, da alegria geral e da bebida, não restava a opção da tristeza, nenhum de seus remorsos prosperava, ela só podia se fazer alegre, não se achava feliz, porque felicidade era algo bem mais complexo, mas a expansão de alma podia ser experimentada na sua condição.”

  • Kanibalen, 1941 (Página 276)

“O passado era sempre algo que se queimava rapidamente. Eles estavam abandonando a escravidão. Não queriam olhar para aquela parte das próprias vidas. Que desaparecesse logo. E que tudo que sobrasse fossem coisas carbonizadas, da mesma cor daqueles homens que se perdiam na noite que os absorvia”

É isso. Sim, trechos pequenos, e poucos, mas é um livro cujas reflexões acontecem em decorrência da situação em que o narrador onisciente está analisando, observando o passado das personagens, sua sensações e seus pensamentos delirantes.

Até a próxima!

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