Romance, orgulho e luta racial – ‘Próspera’ é música, de todos os tipos, da melhor qualidade

Romance, orgulho e luta racial – ‘Próspera’ é música, de todos os tipos, da melhor qualidade

A minha experiência com Tássia Reis é limitada.

Infelizmente, quando a ouvi pela primeira vez, numa cypher do RapBox, Sinfonia da Revolução, eu não curti muito; pra ser sincero, naquela cypher eu só gostei de metade da música. Eu admito, desde esse momento, que a voz era boa, mas por algum motivo o verso, a quebra de ritmo do beat não me agradaram. Mas tudo bem. Não foi a última vez que trombei com ela em playlists.

Imagem de divulgação do single ‘Contramão’, com Tássia Reis, Pìtty e Emmily Barreto.

A segunda vez foi seis meses depois, no single “Contramão“, da Pitty.. Pitty é uma artista que eu tenho como querida, mesmo não sendo minha favorita. Dessa vez, Tássia roubou totalmente a minha atenção. Apesar de um tipo similar de participação, no sentido de mudança de ritmo e tudo mais, dessa vez eu não conseguia tirar aquilo da cabeça; porém ainda sim a primeira impressão de seis meses antes não havia desaparecido.

Algum tempo depois, provavelmente em alguma playlist de novidades ou no DailyMix do Spotify, ouvi duas músicas de tons completamente opostos da mesma: Shonda e Se Avexe Não. Aí não teve como negar que o primeiro verso ouvido era uma peculiaridade- ou realmente algo fora da curva de qualidae dela ou alguma frescura minha que eu não consegui identificar sozinho, mas, de qualquer maneira, o fato é que a Tássia é extremamente talentosa e tem muito pra falar, de maneiras diversas e maravilhosas.

Thumbnaildo videoclipe de Se Avexe Não

Se avexe não
Não chore
Nem se demore nesta dor
Porque acalanto do seu coração
Está vindo
E é tão lindo quanto esta canção

Se Avexe Não

E pouco mais que quatro meses depois, ela lançou um disco novo, que ouvi sem compromisso algum no trabalho a primeira vez, e estou ouvindo uma ou duas vezes por dia desde então: Próspera.

Tô na contramão do sistema
Eu tenho medo da polícia
Mais de você, sinto apenas pena

Imensa Luz

Esse álbum é simplesmente incrível. Tássia usa e abusa da sua voz poderosa, mas não tem medo de colocar um auto-tune para alcançar efeitos diferenciados. em uma faixa solta punchlines cirúrgicas e na outra fala de amor com uma leveza tocante.

Como eu falei no começo, minha experiência com a Tássia é limitada, e talvez por isso eu ainda me impressiono com a flexibilidade artística- mas eu acho difícil. Não me lembro a última vez que vi um álbum que mesclou com tanta maestria um R&B, trap, MPB, jazz… enfim, deu pra entender a extensão dessa habilidade.

Tudo é uma incerteza
Mas senta aqui na mesa
Me paga uma breja
E pensa eu mais você
Por que não?

Eu + Vc

Eu ainda não achei uma faixa favorita. O motivo é que a cada vez que ouço esse disco algo salta que não devia passar despercebido. A música de Tássia conversa com muito a todo momento, e Próspera é sem dúvida um dos melhores álbuns de música brasileira do ano e uma experiência indispensável.

Amor além da matéria – sobre “Ela”, Spike Jonze (2013)

Amor além da matéria – sobre “Ela”, Spike Jonze (2013)

Mais que sobre a realidade versus artificialidade- trama bem explorada nas distopias modernas e, mais especificamente, pelo Black Mirror- o filme “Ela” (Spike Jonze, 2013) se trata de como nos relacionamos da mesma maneira em todos os campos da vida. Também é sobre um amor diferente do visto nos livros e poemas; um amor real e introspectivo, provindo de uma jornada de redescoberta de si.

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A fotografia de “Ela” há de se destacar; além da maneira tocante dos personagens de se relacionar, a movimentação, focalização e enquadramento do filme dão a ele outra dimensão.

O filme começa (genialmente) numa cena que viraria cotidiana no longa-metragem: Theodore (o personagem principal muito bem interpretado por Joaquin Phoenix) redigindo uma carta pra lá de tocante. O filme quebra as expectativas mostrando que esta é para alguém não relacionada ao protagonista, mas cliente da empresa na qual trabalha.

O envolvimento de Theo com a inteligência artificial ‘Samantha’ se dá de uma maneira controversa, mas natural (com a voz emblemática de Scarlett Johansson). Sem a possibilidade de materializar-se, pela falta de um corpo, Samantha se faz presente na vida do protagonista mesmo como um “computador”. Firmando-se como uma par-romântico, com sentimentos e pensamentos extremamente humanos se torna querida do espectador, além de uma verdadeira agente na vida de Theo.

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Theo se assemelha muito, na minha visão, à Paulo Leminski, grande poeta brasileiro. Ambos escritores, sensíveis e… com um notável bigode! (Acima, Joaquin Phoenix como Theodore. Abaixo, Paulo Leminski).

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“Acaso é este encontro / entre o tempo e o espaço / mais do que um sonho que eu conto / ou mais um poema que eu faço?” – Paulo Leminski,

 

A relação do protagonista com 3 mulheres principalmente faz a pergunta “a quem se refere o título ‘Ela’ se refere?” pode surgir, mas é só assistindo essa obra-prima do Cinema para chegar a conclusão: seria Samantha, a ex-mulher Catherine ou a melhor amiga Amy?

Fica mais que recomendado o filme “Ela” de Spike Jonze.

 

 

Ponto parêntesis Léo: conteúdos inspiradores e complementos

Antes de escrever essa resenha, dois vídeos me inspiraram a ver “Ela” e com toda certeza influenciaram minha maneira de assistir o filme (e creio que muito para o lado bom), por isso deixo aqui dois vídeos: um do Quadro em Branco, um canal do Youtube sensacional que trata de assuntos culturais-filosóficos-sociológicos de maneira sensacional (sou seguidor fiel do canal) e outro do Gustavo Cruz, um canal que conheci agora, mas com a produção interessantíssima. Fica a dica!

(Este vídeo trata mais da dimensão amorosa nos dias atuais, muito presente na discussão do longa, não se retrata diretamente ao filme em si.)

(Este traça paralelos entre “Ela” e “Lost in Translation”. Trás o background de criação do longa em questão, por isso tão precioso!)

 

A Segunda Pátria-Miguel Sanches Neto

AVISO: Será feita uma nem tão pequena resenha. A partir das bolinhas pretas (tópicos) temos as melhores reflexões do livro, onde no tópico se encontra a estrutura: Parte, ano (Página). Boa leitura!

O livro é dividido em 4 “partes”, as quais, por sua vez, tem capítulos. O tema do livro é nazismo aplicado ao sul do Brasil, porém de uma maneira inusitada: o autor modifica a História, criando uma aproxima

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Capa do livro “A Segunda Pátria”, edição de 2015 (1a edição)

ção de Getúlio Vargas e Adolf Hitler. No total, a trama se passa desde meados de 1930 até (quase) 1945.

Para contar essa história, Miguel apresenta 2 personagens principais, Adolpho (ou Trajano) Ventura e Hertha, mas usa o passado de muitos personagens na trama para narrar um enredo (apesar de fictício) extremamente realista. O autor ainda usa figuras históricas reais (como Benjamin Vargas e Gregório Fortunato) como personagens.

Achei o livro maravilhoso, vale completamente a leitura para se entreter, mas principalmente pela experiência histórica por ele trazida. Sanches é doutor em Teoria Literária (UNICAMP) e fez uma profunda pesquisa para o desenvolvimento desse romance (todas as fontes utilizadas localizam-se no final do livro, no capítulo de ag

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 Capa do livro “Um rio imita o Reno” de Vianna Moog, citado no capítulo de agradecimentos, pois faz diálogo com o livro criticado.

radecimentos), dando uma base profundamente firme para o autor.

De crítica, senti um certo machismo pela parte do autor em uma ou duas partes (algo que para mim é triste, mas pode ser simplesmente pela natureza do livro), uso de certos consensos errôneos na narrativa (o uso da palavra anarquia de maneira errônea chamou minha atenção..) incomodou. É um livro para ser lido (pelo menos) duas vezes, pois a narrativa, com o final do livro, ganha outro significado.

Agora, vamos para os melhores trechos reflexivos, escolhidos por mim. Eles podem ser compreendidos sem a leitura do livro, mas com a leitura, ganham um significado muito maior… enfim, vamos lá.

  •  Neger, 1940 (Página 30)

“Mãos acostumadas às armas dificilmente amam virar páginas”

  • A teoria do lobo, 1941 (Página 202)

“Diante da música, da alegria geral e da bebida, não restava a opção da tristeza, nenhum de seus remorsos prosperava, ela só podia se fazer alegre, não se achava feliz, porque felicidade era algo bem mais complexo, mas a expansão de alma podia ser experimentada na sua condição.”

  • Kanibalen, 1941 (Página 276)

“O passado era sempre algo que se queimava rapidamente. Eles estavam abandonando a escravidão. Não queriam olhar para aquela parte das próprias vidas. Que desaparecesse logo. E que tudo que sobrasse fossem coisas carbonizadas, da mesma cor daqueles homens que se perdiam na noite que os absorvia”

É isso. Sim, trechos pequenos, e poucos, mas é um livro cujas reflexões acontecem em decorrência da situação em que o narrador onisciente está analisando, observando o passado das personagens, sua sensações e seus pensamentos delirantes.

Até a próxima!

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