Permissão pra ser

Eu não pedi pra nascer
Na verdade, não pedi nem pra ser
Esse negócio estranho, pessoa complicada
Meu olho é castanho e a menina emaranhada
De olhar pra rua e ver acidente
De fitá-la nua e ter outra em mente
De querê-la sua sem saber o que sente.

Sou meio mesquinho, egoísta
Queria eu ser budista
É demais pedir uma aura branca?
É demais pedir pr’esse espírito que incapacita
Essa coisa que se mata mas ressuscita
Desaparecer?

Não acho que é pedir demais
Mas nem me surpreendo mais
Eu nem pedi pra nascer.

-R.C.

Uma gota de grafite num iceberg de papel

Me parece que o tempo, cada vez mais, mais tira certezas do que as confirma.

Eu, que sempre cultivei amizades ao invés de coleguismos- me rendendo uma vida por vezes solitária-, julgava estas primeiras dignas pela profundidade de conversas e idéias, como se colegas não fossem dar a mim aquilo que busco: inspiração e conforto.

Errei. Errei feio.

O escoamento dos minutos tem me mostrado que conexões rasas dão às vezes conversas frutíferas, e também vejo que amizades profundas podem dar muita asneira no papo. Nada contra isso, claro. Mas me surpreende ver rios, possíveis de acabar no oceano (ou um mar, sem problemas) desaguem em lagos ou talvez sequem, enquanto uma poça pode terminar numa geleira.

É possível sentar-se na mesa de um bar e, por um comentário descuidado, não pensado e certeiro, começar uma troca de idéias muito (mesmo) grande e profunda. É possível nunca mais falar com a pessoa após, mas as palavras ficam.

Na falta de rios, poças e lagos na madrugada, me reporto ao papel, chuviscando estes humildes pensamentos. Uma gota de grafite num iceberg de papel.

-R.C.

Ciências

Conhecimento
É bom sempre, visível
Traz tormento
Paz impossível
Mas é alimento
E imprescindível

Já passaram milhares de anos
A discussão permanece igual
Platão apontava a outros planos
Seu discípulo ao visual

Misticismo
Ou realismo?
Entre ambos o enorme abismo.

Filosofia humana
Ou metafísica divina?
Seguir aqueles da retórica
Ou a natureza mitológica?

-R.C.

Caos, só caos

Quer-se da vida
Fazer romance,
Mas o passado
É o que acontece
Nada mais que acontecimento
Atrás de esquecimento.
Vive-se no hábito
Situação cômica
Querem ligar todo fato
Mas é livro de crônica.

-R.C.

Desespero

Não tenho tempo
Nunca o tive, nunca o terei
Pressa inútil, te direi
Pois deste caminho não sou rei

Não funciona comigo
Do mesmo jeito que com os outros
A escola é o menor mal
O seu conjunto aterroriza

Presente inútil
Preocupações bobas
Futilidades inteiras

Quero a realidade
Não aguento mais cópias
Quero sair dessa imitação.

-R.C.

Karma

Não existe gente boa
Todos tem defeitos
Fazem crueldades

O destino não existe
E o acaso te coloca nas piores situações
Não tem o que fazer
Se não algo “ruim”

Se ele existe
E o karma sua consequência,
Todos morremos eventualmente
Sinal que algum momento
Fizemos algo digno de morte

O ser humano é um lixo.

-R.C.

Lugares impossíveis

Procuro amor em todo lugar
Mas sempre que amo não sou
E sempre que sou não amo
E me prendo a maus amores facilmente

E não vejo lugar errado pra procurar
Só um que nunca acharei e nem acho
E é dentro de mim
Ali nem tento

Sei que não há interesse
Sequer amor
Sequer reciprocidade

Então não tento
E continuo nos maus-amores
Ou no não-amar.

-R.C.