Nós perdemos

Nós perdemos.

Não falo simplesmente da esquerda partidária, que sucessivamente tem sido “surpreendida” nas urnas, mas sim de nós, humanistas. Não deveria ser considerado ‘de esquerda’ apoiar direitos humanos, mas, neste momento, é. O feminismo não deveria ser ‘de esquerda’; mas é. Lutas raciais, antifascismo e muitos outros movimentos deveriam ser mais sobre igualdade, mas não. E por isso que perdemos.

Bolsonaro, Trump, Olavo de Carvalho, LePen e muitos outros são representantes de uma luta perdida. Não adianta mais, como disse o comediante Jonathan Pie “falar que tal coisa é racista”. Se, em primeira análise, vê-se um discurso vexaminoso (“não se pode achar isso, é [inserir algum preconceito]”) e nem um pouco efetivo- e assim percebemos o porquê de não haver diálogo-, podemos fazer uma segunda análise. Um amigo me disse dias atrás sobre como, para debater, há de se estabelecer um chão comum.

A segunda análise que faço é: se falávamos que “isto é preconceito”, é devido ao fato de o preconceito ser um denominador comum negativo entre ambas partes. E, no fundo, faz muito sentido; estamos mostrando ao outro como sua posição A contradiz sua posição B. Funciona muito bem quando duas pessoas têm como preceito o racismo como estrutura social, o machismo como verdade, não como opção, a heteronormatividade como real. O problema vem do fato desse chão não ser o esperado.

Na verdade, as verdades não são comuns. Todos já devem ter se deparado com um argumento seguindo a linha de raciocínio ‘a minha verdade e a sua’. O número 6 que pode ser um 9. O copo meio cheio ou meio vazio. Não é questão de pessimismo ou otimismo, megalomania ou ponto de vista. Temos de recuperar esse chão em comum. Temos que voltar para as aulas de sociologia do segundo ano do Ensino Médio, no qual falamos sobre a origem dos direitos humanos.

E é aí que perdemos. Perdemos, pois, nesse momento da história, já devíamos ter um chão comum para esses debates. Nós, defensores dos direitos humanos, deveríamos ter percebido esse vão entre o que pensamos ser básico e o que os ‘negligentes’ pensam. Os ‘negligentes’ já deveriam ter percebido que não somos (necessariamente) comunistas, socialistas, anarquistas.

A esquerda partidária perde nas urnas, mas não somente para um ascendente conservadorismo no mundo todo. Perde, pois, deixou de ver o abismo de conhecimento entre ela mesma e o resto. Ela julgou que todos pensam igual, mas o talvez impera.

Eu não trago soluções neste texto. Infelizmente, como eu disse ao meu amigo, eu ainda não sei quão fundo é esse buraco. O que sei é que vamos ter que recomeçar o debate do zero. Eles não veem o porquê das cotas, mas não veem também o racismo como estrutura, mas como ‘vitimismo’. Eles não veem objetificação da mulher, mas também não percebem os séculos de opressão do homem. Felizmente, somos jovens. Ainda temos tempo. Mas, por hora, nós perdemos.

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