A ocupação das escolas que seriam afetadas pelo plano de reorganização escolar estadual do governador Geraldo Alckmin em 2015 foi o início de uma onda de rebeliões pelo Brasil. Na época, cerca de 200 escolas foram ocupadas, e o movimento chacoalhou as diretrizes do Governo, fazendo-o, inclusive, recuar em sua decisão. Foram mais de 1000 escolas ocupadas por secundaristas em todo o país em repúdio a PEC 55/241.

Mas não foi disso que vim falar (hoje).

O artigo é sobre o documentário lançado em 9/16 (novembro de 2016), com a direção de Flávio Colombini e Beatriz Alonso: “Lute como uma menina!” Com 1h e 16min, é uma aula sobre diversos temas sociais; consciência de classe, autonomia/autogestão, feminismo, abuso de autoridade, repressão de movimentos sociais numa suposta democracia…

O foco é nas chamadas “meninas de luta” que aprenderam consigo mesmas a resistência supostamente perdida a muito pela juventude brasileira. 100% de entrevistadas mulheres e uma visão de dentro das ocupações tão repudiadas pela mídia e pelos conservadores em geral, vale (no mínimo do mínimo) uma espiada.

Se quiser, já que está no LdM, vê um poema presente no documentário, escrito e interpretado por uma das secundaristas (Carla Prandini), chamado #Ocupatudo.

Após esta apresentação, você pode ver o documentário nesse link do youtube e depois ler a análise ou ver a análise e depois o documentário. Você que sabe, leitor.

Bem, chega de conversa, vamos lá.
(Mas para não perder o costume…)


AVISO: Será feita uma pequena análise. Devido aos temas tocados no documentário, obviamente a opinião do autor está expressa ali. Ela não condiz necessariamente com a do diretor(ra) da obra. O texto foi dividido em algumas partes conforme o tema abordado (dentro do documentário).  As imagens utilizadas aqui são provenientes do documentário.
Boa leitura!


Polo-sul paulista

Um elemento muito presente em todas as entrevistadas é o senso de luta autônoma. Os secundaristas se organizaram sozinhos, desafiando a visão conservadora de juventude irresponsável, sem maturidade para se organizar e ideologia feita para lutar por algo importante (como a integridade das escolas).

Como disse uma das entrevistadas, a escola é o lugar onde o adolescente mais passa o seu tempo e o objetivo das ocupações foi manter este lugar funcional.

A ideia de ocupar não é novidade; em MT já houve movimento com esta estratégia e a “Revolta dos Pinguins” chilena espalhou o método, inspirando os nossos secundaristas. Na verdade, a cartilha publicada pelo Mal-Educado (blog Grêmio Livre) sobre ocupação foi leitura dos primeiros no movimento.. Seguiu-se quase todos os preceitos ali escritos.

No início, ele fala da importância da organização de comissões para decidir e cuidar sobre temas diversos, parte quase decorada por manifestantes (algo a se notar, mas não criticar). Também sobre como a ocupação é o último instrumento de luta, após tentativas de diálogo e manifestos.

O trecho meio ignorado foi a instrução clara: a ocupação deve durar por volta de uma semana. As ocupações duraram meses.

A estratégia deu certo, e Maquiavel brindaria a conquista por adequar as regras às necessidades. Mas devemos observar a seguinte questão: durante este período, as escolas foram autogeridas por alunos, sem comando hierarquizado e centralizado.

Haviam aulas (claramente influenciadas pelo próprio movimento) de caráter social, cultural muito boas. Discussões acerca de temas cruciais para a sociedade brasileira, tais como racismo, machismo e pobreza feitos, um palco nunca antes dado àquelas pessoas (de acordo com depoimentos).

Claro, no atual sistema educacional a escola dos alunos não é muito boa; vivemos no período dos vestibulares conteudistas, não da procura por cabeças pensantes. O colégio público parece uma prisão e sua origem vem de um lugar relativamente parecido: os cartéis do General Franco (fascista espanhol).

A produção intelectual e cultural ali desenvolvida é de importância vital e a escola ali instituída deveria ser norte.

Outra característica do movimento interessantíssima foi a ausência de líderes. O grito “sem liderança” esteve presente em diversas manifestações, mostrado constantemente nas gravações. Infelizmente essa característica não se manteve por muito tempo, de acordo com Julia Durques, ex-secundarista participante das ocupações. Disse ela que, ao início a ausência de liderança e igual distribuição de tarefas acontecia, mas paulatinamente alguns tomaram frente nas decisões.

Mesmo assim, as escolas mantinham-se unidas no objetivo principal, acima da opressão policial, social e midiática. Há um conceito sintético para um dos motivos desta unidade (sem liderança ou organização vertical): consciência de classe. Ao se reconhecerem como classe estudantil, os alunos mantiveram a unidade (e, consequentemente, o movimento foi muito bem sucedido).


O Dandarismo

O documentário se propõe (até pelo nome) a explorar a participação feminina nesse movimento pela educação. E elas vem com força, mostrando que não tem nenhum “sexo frágil”, colocando o ideário igualitário entre sexos nas organizações escolares. Ele também olha para o ensino e vê a falta de personagens negras nos livros de história. Não falta herói, falta interesse.

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A polícia repreende movimento pela educação (fala muito sobre o país em que vivemos).
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Secundarista negra tomando voz de protesto em bloqueio de via, cena extremamente dandarista.

A erudição do movimento (mais um ponto desqualificando-o de estudantes sem o que fazer) vem quando ele põe em pauta nomes e conhecimentos até então escondidos. Entre eles, um muito curioso, interessante e importante: Dandara dos Palmares.

A personalidade cai como uma luva ao olhar o documentário. Apesar da dúvida de sua existência (como coloca a análise de Nei Lopes, com base em análises etnográficas, históricas e etc.), há a certeza da grandiosidade de seu nome e a falta de interesse do Estado. As lendas de Dandara são importantes por esta não seguir os padrões impostos até hoje, por sua voracidade por luta, amor à liberdade e coragem (reza a lenda de que se matou após ser presa, com pavor de ser escrava). Sua força está presente em todas as meninas de luta, inclusive na opressão policial.


Black blocs juvenis? Claro que não

Nas gravações, a violência policial é constante. São mostradas desde agressões físicas, psicológicas até bombas. Em estudantes se manifestando. Não há argumento a favor da polícia válido.

“Os policiais estavam defendendo a própria integridade”.

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Cena clássica: estudante em viatura (por querer estudar).

Contra um monte de adolescentes (em menor número) com carteiras escolares e cartazes? Desde quando secundaristas fazem parte (sem crítica ao grupo) dos black blocs?

“Eles bloquearam a rua, estavam atrapalhando o trânsito.”

Diálogo é o caminho para liberar a via. Não porrete, gás lacrimogênio (estragado, por acaso), bala de borracha.

Ainda pode ser feita a analogia das ocupações terem influência anarquista. Do ponto de vista autogestionário e luta por horizontalidade de decisões, é plausível. Dentro das escolas é outra história. Julia Durques diz que houve a ascendência de lideranças e o cooperativismo era amiúde falho, causando desentendimento (mesmo com uma parte dos estudantes se mostrando apoiadores do Anarquismo).

Como tudo no documentário, LCUM! mostrou a maneira com que o Estado trata movimentos sociais, pacíficos ou violentos: reprimindo.


A manifestação juvenil é de suma importância.

O atual movimento de ocupação por todo o Brasil vem das Meninas de Luta, e conhecer a história delas é essêncial para entender o maior movimento social dos últimos tempos no Brasil, e LCUM! é excelente para o conhecimento.

Espero que tenham curtido essa análise, esperamos trazer novidades sempre para o blog.

Clique aqui para ir ao documentário

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