Caboclo

Outro dia pensei na morte,
mano, uns dois dias
Depois disso sai de casa por uns três dias
Quando voltei, não encontrei um Jeremias
Só o espelho e a Winchester 22.

Não houve duelo, não houveram tiros
Troca de olhares, muitos

Eu sou jovem demais pra morrer
E deixar tanta pergunta sem responder.

A alma do Rap – um paralelo entre Negra Li e Baco Exu do blues

A alma do Rap – um paralelo entre Negra Li e Baco Exu do blues

Bluesman é um álbum fino. A mistura feita por Baco Exu do Blues e cia. de elementos audiovisuais fez dele mais que um CD, mas uma obra de arte complexa que provavelmente não terá a atenção merecida quando comparado ao empreendimento anterior, Esú.

Curiosamente (talvez coincidência, talvez um raciocínio comum entre os artistas e produtores) outro álbum foi lançado no mesmo dia (23 de Novembro de 2018): Raízes, da Negra Li. Este nome, por si só, já desperta muito dentro do universo da música brasileira (principalmente o rap). A integrante do RZO, com 4 discos nas ruas agora, presente nos feats pela voz potente e rimas maravilhosas, é um nome de responsa. O álbum trás uma vibe anos 2000 e multi-cultural, explorando o rap, samba, e muito mais.

Ambos trabalhos, dentro de si mesmos, já mereceriam análises e textos. Tenho plena confiança que é possível fazer TCC’s desses trampos lindos e contemporâneos.

Não é o caso.

Trago algo mais simples, uma correlação entre ideias ‘opostas’ em ambos. Coincidentemente (novamente) essas ideias aparecem logo na primeira faixa de cada um- e, de novo, por mais que elas se repitam ao longo do som, vou focar nesta- a faixa-título de Baco “Bluesman” (letra) e a animadíssima “Venha” (letra), da Negra Li.

Esclarecendo tudo isso, vamos dar um passo atrás.

Baco e Negra Li não são nem um pouco parecidos. Pra falar a verdade, musicalmente falando, compartillham pouco além do gênero Rap pois, por exemplo na voz, Negra Li costuma variar entre ser melódica e um tom impositivo enquanto Exu do Blues se utiliza de emoção pra por rimas, dependendo do contexto, coisas do gênero. Enquanto ela é, claramente, adepta do boom-bap e se sente confortável com outros estilos, Baco (que vai pro boom-bap também), quando usa outras influências no som, para por aí- não explora uma voz cantada pra nenhum lado. E não tem problema algum em nenhum dos dois. São ótimos em suas propostas. Mas é válido denotar isso pois, quando a mensagem é passada, a maneira de expor muda a recepção.

Bluesman começa com um verso falando sobre apropriação cultural enquanto enaltece o Blues como primeiro estilo que libertou negros. Ele fala

“Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres
Anel no dedo em cada um dos cinco
Vento na minha cara eu me sinto vivo
A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de Blues
É isso, entenda
Jesus é blues
Falei mermo”

Baco Exu do Blues – Bluesman

Trazendo à tona todo esse contingente de movimentos negros que foram negados enquanto ‘pertenciam’ (por falta de uma palavra mais definitiva) à sua origem, mas passam a ser aceitos quando adotados pela cultura branca, Baco enaltece a sua origem e se coloca neste meio. Por enquanto, só isto importa.

Foto que representa a faixa ‘Bluesman’, por Helen Salomão

Negra Li começa seu álbum com algo que eu gosto de chamar de Egotrip*, já se afirmando de todas as maneiras possíveis- por si só, por si dentro da sua etnia e cultura, origem, exaltando as influências da sua vida; enfim, um verdadeiro desfile de reafirmações.


E quando eu chego na balada baby, é normal parar a pista
Eu sou tipo sexta feira, dia de maldade, capa de revista
Se não achou tudo isso tá de brincadeira, então por favor nem insista
Deve tá com inveja da preta ou tá precisando de um oculista
Eu vim lá das quebradas e tenho aquela marra das minas de favela
Misturo a malícia das ruas com a elegância da passarela
E quando passa ela, malandro até sente
Como se uma escola de samba tivesse passando bem na sua frente

Negra Li – Venha

Enquanto ela leva sua narrativa numa direção mais interpessoal, se utilizando duma figura externa para mostrar o quão tudo ela é, há também um efeito contrário. Por mais que a figura externa esteja presente em pelo menos 5 das 8 linhas, o sentimento mais forte é o protagonismo pessoal dela. Negra Li é a agente modificadora, uma mulher que assumiu este papel.

Foto da Negra Li por Felipe Vieira

Baco não leva por esses lados. Não fica 100% claro, visto que o único momento no qual a referência a si mesmo é nítida (“eu sou o Exu do blues”), mas pode-se analisar o verso deixando de lado, por um momento, o pensamento de apropriação cultural, e por no literal as frases de Baco. Neste exercício, percebe-se a tentativa do rapper de se separar tanto da figura de MC quanto da figura humana. Ele é um estilo, ele é um dos orixás, ele é tantos outros estilos musicais, ele é jesus, mas não é humano.

Esta diferença entre os dois versos é fundamental pois ambos antecedem todo o resto das suas respectivas obras, e por vezes os clichês estão certos, e acredito piamente que a primeira impressão é crucial para uma boa análise. Neste caso a ‘primeira impressão’ é a primeira estrofe de cada música. A partir dai, recomendo que você já tenha ouvido ambas músicass e tenha mais ou menos noção da estrutura de ambas, já que a comparação não dá para ser feita tão simetricamente a partir daqui.

No final do primeiro Verso (vulgo estrofes 2 e 3) de ‘Venha’, continua o jogo entre a referencia externa contextualizando uma visão interna, mas é introduzido um elemento sonoro do samba, presente na música e no álbum seguido pelo refrão romântico seguindo a egotrip e a proposta.

No segundo verso (vulgo estrofe 2) de ‘Bluesman’, Baco trás a letra mais pra si, quase contradizendo o verso anterior de afastamento da figura interna. Na verdade, Baco começa enaltecendo os pretos, mas rapidamente ele usa frases mostrando o que o separa do resto (‘um dos únicos que mostra o que sente’/’minha loucura’) e destaco o que mostra o quão separado Baco está: “
O mundo é lento ou eu que sou hiperativo”.

Enquanto Negra Li fala de si se colocando num grupo e puxando esse grupo consigo, Baco levanta o grupo, mas se remove dele. E faz total sentido. Negra Li segue o álbum não colocando tantas questões internas no disco, sendo que o momento mais íntimo (tirando a conotação romântica da palavra) de Raízes é em ‘Mãos Pequenas‘. São tratadas questões gerais (por falta de uma palavra melhor) com flow, rima e postura exemplares.

Baco, por sua vez, trata dessas questões mais internalizadas durante praticamente todo o álbum, até a exaustão. A separação não tem a ver somente com o Mito** que a sua narrativa cria, mas também com uma perspectiva pessoal e psicológica, tão específica, apesar de relacionável. Baco Exu do Blues é negro e enaltece esta cultura, porém, ao mesmo tempo que ele se põe na linha de frente nesta luta (como ele faz no 3o Verso por ex.), é nítido o como o desgaste dentro de si é imenso- e por isso é necessário um ‘renascimento’ como Bluesman.

Novamente, ambos trabalhos estão maravilhosos e dignos de ser escutados por anos… meu objetivo aqui foi acertar a diferença de postura e narrativa entre dois rappers de níveis e maturidades diferentes, mas com duas propostas diferentes, acima de tudo.

Obrigado por acompanhar até aqui!


Este texto está num formato diferente, tema diferente e linguagem diferente do normal aqui no Literatura de Metrô; gostou do texto? Gostaria de ver mais textos do tipo (com temas similares ou não)? Deixe seu comentário!


 * Egotrip: na minha visão, é o exercício literário de autoafirmação e admiração-de-si. De longe não é algo ruim, e é bastante usado no rap principalmente com o objetivo de empoderamento estético e etc. Normalmente mostra a habilidade da pessoa em questão e/ou amor próprio, dependendo do contexto. Exemplos de egotrip no rap.
** Para saber mais sobre, recomendo este vídeo do Quadro em Branco. O conteúdo não tem muito a ver com essa análise em específico, mas é interessante e com certeza acrescenta à discussão.

Bolsas de energia

A beleza da olheira é a beleza do trabalho
A ruína da mesma é o jogar-se no assoalho
Sem saber o porquê tudo que faço é falho
Não importa o que tente pra eu não ser falho

Achei que o dom de dormir viesse do berçário.

-R.C.

Branco

A minha vida é uma gritaria de acontecimentos
Mas é o teu silêncio que me ocupa
É um monte de fonemas,
Palavras sem ordens exatas
E a tua reticiencia me enlouquece

Você é a pausa numa f(r)ase incompleta.

Onde?

Eu busco seus olhos nos céus,
busco teus sentimentos na lua
busco teus toques num cobertor
busco seus lábios em todo copo.

Eu te procuro nos lugares errados
Com medo de te achar.

-R.C.

Nós perdemos

Nós perdemos.

Não falo simplesmente da esquerda partidária, que sucessivamente tem sido “surpreendida” nas urnas, mas sim de nós, humanistas. Não deveria ser considerado ‘de esquerda’ apoiar direitos humanos, mas, neste momento, é. O feminismo não deveria ser ‘de esquerda’; mas é. Lutas raciais, antifascismo e muitos outros movimentos deveriam ser mais sobre igualdade, mas não. E por isso que perdemos.

Bolsonaro, Trump, Olavo de Carvalho, LePen e muitos outros são representantes de uma luta perdida. Não adianta mais, como disse o comediante Jonathan Pie “falar que tal coisa é racista”. Se, em primeira análise, vê-se um discurso vexaminoso (“não se pode achar isso, é [inserir algum preconceito]”) e nem um pouco efetivo- e assim percebemos o porquê de não haver diálogo-, podemos fazer uma segunda análise. Um amigo me disse dias atrás sobre como, para debater, há de se estabelecer um chão comum.

A segunda análise que faço é: se falávamos que “isto é preconceito”, é devido ao fato de o preconceito ser um denominador comum negativo entre ambas partes. E, no fundo, faz muito sentido; estamos mostrando ao outro como sua posição A contradiz sua posição B. Funciona muito bem quando duas pessoas têm como preceito o racismo como estrutura social, o machismo como verdade, não como opção, a heteronormatividade como real. O problema vem do fato desse chão não ser o esperado.

Na verdade, as verdades não são comuns. Todos já devem ter se deparado com um argumento seguindo a linha de raciocínio ‘a minha verdade e a sua’. O número 6 que pode ser um 9. O copo meio cheio ou meio vazio. Não é questão de pessimismo ou otimismo, megalomania ou ponto de vista. Temos de recuperar esse chão em comum. Temos que voltar para as aulas de sociologia do segundo ano do Ensino Médio, no qual falamos sobre a origem dos direitos humanos.

E é aí que perdemos. Perdemos, pois, nesse momento da história, já devíamos ter um chão comum para esses debates. Nós, defensores dos direitos humanos, deveríamos ter percebido esse vão entre o que pensamos ser básico e o que os ‘negligentes’ pensam. Os ‘negligentes’ já deveriam ter percebido que não somos (necessariamente) comunistas, socialistas, anarquistas.

A esquerda partidária perde nas urnas, mas não somente para um ascendente conservadorismo no mundo todo. Perde, pois, deixou de ver o abismo de conhecimento entre ela mesma e o resto. Ela julgou que todos pensam igual, mas o talvez impera.

Eu não trago soluções neste texto. Infelizmente, como eu disse ao meu amigo, eu ainda não sei quão fundo é esse buraco. O que sei é que vamos ter que recomeçar o debate do zero. Eles não veem o porquê das cotas, mas não veem também o racismo como estrutura, mas como ‘vitimismo’. Eles não veem objetificação da mulher, mas também não percebem os séculos de opressão do homem. Felizmente, somos jovens. Ainda temos tempo. Mas, por hora, nós perdemos.

Eufemismo

O sentimento tem maior dimensão
Ou só ria ou só chore
Sem sorriso, o caixão.

Amar é viver em hipérbole.